sábado, 18 de fevereiro de 2012

Que Cada Olho Negocie Por Ele Mesmo - 2011


"Que cada olho negocie por ele mesmo" participou da 3ª edição do Claro Curtas e fui selecionado como semifinalista na categoria Universitário. O tema foi: "O tempo do agora".

O curta experimental foi elaborado a partir do tema do festival e tive algumas influências de Histoire(s) du Cinéma do Godard (havia assistido pouco antes) na concepção do vídeo. A ideia era a expansão do tempo presente, a partir de uma cena, até chegar na realidade. O questionamento das imagens como forma de questionar a própria realidade.

Assim, no início o reflexo de uma mulher no metrô dá lugar a paisagem. O primeiro plano seria a metonímia do filme, onde busco então expandir esse tempo do agora, buscando uma atenção maior à imagem ao usar o recurso estilístico do P&B. A partir daí, questiono a própria imagem, o ver, como forma de expandir o seu significado. Em seguida, continuo a partir da descontrução dos códigos, como metáfora da crítica, como análise do emaranhado de significados. Os outros sentidos entram como forma de expandir, também, a própria realidade - que é combustível para a arte. Por fim, a câmera questiona os vários papéis de quem está por trás, as diferenças de quem produz as imagens. O reflexo da realidade expõe o próprio sujeito.

Foi utilizado uma câmera filmadora CANON HF-S21, 24p nativo, com qualidade de 24mp/s e resolução FULL HD. As imagens foram montadas no Adobe Premiere CS5. O som foi captado na própria câmera, com o auxílio de um microfone shotgun CANON DM-100. Desta vez, a qualidade da minha querida Canon me deixou muito satisfeito.



Minha sinopse, tão confusa quanto a descrição acima:

Para Sto. Agostinho "O presente do passado é a memória, o presente do presente é a visão. O presente do futuro é a expectativa". No curta, estes presentes intercalam-se e confundem-se, procurando fugir da noção de progresso linear buscando no "agora" um ímpeto original para se lançar na realidade - apreendendo-a de maneira paradoxal: buscando a totalidade sem que, com isso, se esgote as possibilidades. O tempo do agora é o tempo de interpretar esses presentes (fenômenos) em um mundo carregado de informações. Uma imagem é só uma imagem? O que há além do que se vê?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Cinema Japonês - 1

 Kenji Mizoguchi (1898-1956) é, no bom sentido, um monstro. Integra um dos três grandes do cinema japonês clássico, ao lado de ninguém menos que Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu. Começou a filmar em 1923 e continuou a lançar quase 2 filmes por ano, até a sua morte. Esse cinema japonês clássico tem temas bem próprios, cada diretor com suas idiossincrasias, mas todos perpassam temas do cotidiano, dramas e até histórias clássicas do Japão Feudal. Para se assistir a esse cinema, deve-se realizar um exercício de desapego cultural e abraçar como uma criança aquele novo universo. Os mesmos olhos conhecedores com que lemos a cultura ocidental, com pré-conceitos, vícios, códigos culturais e morais não nos permite absorver com a mesma intensidade o cinema oriental, o retrato de sua cultura, histórias e cotidiano. Como uma criança aprendendo a ver o mundo pela primeira vez, temos que assistir a esses filmes através deslumbramento que as imagens e o áudio podem nos oferecer.


Pra começar, o tempo de cena é outro, muito mais lento e com destaque para a mise-en-scéne. Utilizam de preferência planos bem amplos, com profundidade de campo e com destaque para as relações e interações, sendo inclusive a casa quase como uma personagem que cumpre um papel em cena. Os closes não costumam pontuar as emoções, ainda que os japoneses sejam bem dramáticos, geralmente os atores cobrem o próprio rosto.  As infinitas expressões de apresentação, chegada, saída, agradecimentos e outras, fazem parte daquele cotidiano bem polido e com divisões sociais e sexuais muito bem definidas. Isso chega a se refletir no próprio ritmo, na montagem e na direção dos filmes. E faz toda a diferença essas definições ao se retratar uma Gueixa ou a Bruna Surfistinha que, fazendo um parênteses, teve um filme que serviu como muleta moral para a sociedade. A gueixa ocupa um papel no Japão que não é o da prostituta na nossa cultura, ela é uma artista educada para servir o seu público que é, no caso, os homens. Obviamente esse "servir" apresenta ambiguidades e dilemas quase sempre retratados nos melodramas japoneses, mas a gueixa está longe de ser uma prostituta de luxo. Mizoguchi, em especial, tem um gosto pelo tema das mulheres na sociedade japonesa. Não por acaso, uma de suas irmãs acabou sendo vendida como gueixa.


Apesar de ter realizado muitos filmes em espaços relativamente curtos, Mizoguchi era muito rigoroso com seus atores e seus planos. Fazia os atores lerem livros e livros para a construção das personagens, ensaiava-os a exaustão e repetia os longos planos, característico de suas obras, até que estivesse satisfeito. O que poderia significar uma centena de vezes.  Esse papel da mulher, em especial da gueixa e o sofrimento inaudível que elas suportam no cotidiano, assim como os dilemas, são o tema de vários filmes. Abaixo, dou um exemplo de um plano (2m50s) que, na minha opinião, é metonímia do trabalho desse diretor:

A Geisha (Gion Bayashi -1953)


http://www.youtube.com/watch?v=kbY5BnPIx4k

2:50 : Plano aberto, com profundidade de campo e sem cortes. A mise en scéne característica de Mizoguchi, em diálogo com seu tema mais comum. Uma mulher está sentada de frente com um homem. Uma espécie de véu nos deixa ver claramente somente a mulher, que está em uma situação desgostosa. Um mobiliário preenche os espaços nos cantos inferiores, à frente do véu. O homem, que é parcialmente visto através do véu, tem motivos escusos para fazer um pedido para a gueixa, que enfrentará uma situação complicada caso não aceite. Ela vira o rosto levemente  em direção à câmera, demonstrando esse desconforto somente para o espectador. Um segundo homem chega em cena, e senta-se atrás da gueixa, de costas. Esse homem faz parte dos planos do primeiro, ainda que compartilhe dos motivos suspeitos.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Mothernidade - 2010


Esse curta foi pensado para a participação na segunda edição do Claro Curtas, onde o tema era "SER DIGITAL" e tinha limite de tempo de 1m e 30s. Fui selecionado como semi-finalista.

Na época, estava muito focado no estudo de imigrações e me veio a ideia de tentar explorar esse tema e as novas tecnologias que hoje permitem um contato muito maior, mesmo com a distância física.

Assim surgiu essa mãe, que mora no Japão, que tem um contato muito de perto com suas duas filhas que estão no Brasil. No entanto, por razões financeiras, não havia a menor possibilidade de eu mesmo filmar. Como essa mãe não é atriz, e não havia a possibilidade de ensaiar com ela, também não foi possível escrever um roteiro pré-definido. 

A solução foi realizar uma entrevista semi-estruturada, com algumas pequenas intervenções, pela internet mesmo, de onde captei o áudio. A entrevista foi ótima, no começo tive alguma dificuldade de encontrar uma espontaneidade mas depois de um tempo a mãe foi se soltando e tudo dando certo. Tive 50 minutos de entrevista, a qual escutei e analisei. A partir daí, defini algumas imagens que ela deveria fazer e deixei outras mais soltas para estimular a criatividade. 

Mais uma vez me incomoda bastante a qualidade, tanto do som quanto da imagem. Foi usada uma câmera fotográfica digital da SONY, dessas compactas mesmo. Tanto para fazer as imagens, quanto para a captação de som. 

De qualquer forma, editei as imagens e o som e eis o filme:




quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Insone - 2008

Esse curtinha de 2008 surgiu de uma conversa com um criança sobre a inserção de efeitos no cinema. Na época ela não entendia como o som de um dinossauro não era acompanhado do próprio animal em campo ou fora de campo durante o momento da filmagem. Resolvi mostrar-lhe na prática.

Usando um celular Nokia com uma câmera de resolução 0.3MP (640X480) fiz imagens deitado na cama. Editei no Adobe Premiere 6.5, acelerando a imagem e inserindo sons de bancos gratuitos na internet. A ideia principal do exercício se focava na dificuldade de dormir associada a sons que iam se tornando cada vez mais absurdos. A partir do som e da imagem também procurei estimular sensações, como o calor ou falta de ar, a partir da própria imagem captada. Ao fim, ao som de carneiros e grilos, o sono finalmente vem.

O filme é praticamente um exercício básico de edição de som e imagem, feito um pouco na pressa, sem muito capricho. De qualquer forma, o inscrevi no festival do minuto e fui contemplado com um prêmio em 2008.