quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Cinema Japonês - 1

 Kenji Mizoguchi (1898-1956) é, no bom sentido, um monstro. Integra um dos três grandes do cinema japonês clássico, ao lado de ninguém menos que Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu. Começou a filmar em 1923 e continuou a lançar quase 2 filmes por ano, até a sua morte. Esse cinema japonês clássico tem temas bem próprios, cada diretor com suas idiossincrasias, mas todos perpassam temas do cotidiano, dramas e até histórias clássicas do Japão Feudal. Para se assistir a esse cinema, deve-se realizar um exercício de desapego cultural e abraçar como uma criança aquele novo universo. Os mesmos olhos conhecedores com que lemos a cultura ocidental, com pré-conceitos, vícios, códigos culturais e morais não nos permite absorver com a mesma intensidade o cinema oriental, o retrato de sua cultura, histórias e cotidiano. Como uma criança aprendendo a ver o mundo pela primeira vez, temos que assistir a esses filmes através deslumbramento que as imagens e o áudio podem nos oferecer.


Pra começar, o tempo de cena é outro, muito mais lento e com destaque para a mise-en-scéne. Utilizam de preferência planos bem amplos, com profundidade de campo e com destaque para as relações e interações, sendo inclusive a casa quase como uma personagem que cumpre um papel em cena. Os closes não costumam pontuar as emoções, ainda que os japoneses sejam bem dramáticos, geralmente os atores cobrem o próprio rosto.  As infinitas expressões de apresentação, chegada, saída, agradecimentos e outras, fazem parte daquele cotidiano bem polido e com divisões sociais e sexuais muito bem definidas. Isso chega a se refletir no próprio ritmo, na montagem e na direção dos filmes. E faz toda a diferença essas definições ao se retratar uma Gueixa ou a Bruna Surfistinha que, fazendo um parênteses, teve um filme que serviu como muleta moral para a sociedade. A gueixa ocupa um papel no Japão que não é o da prostituta na nossa cultura, ela é uma artista educada para servir o seu público que é, no caso, os homens. Obviamente esse "servir" apresenta ambiguidades e dilemas quase sempre retratados nos melodramas japoneses, mas a gueixa está longe de ser uma prostituta de luxo. Mizoguchi, em especial, tem um gosto pelo tema das mulheres na sociedade japonesa. Não por acaso, uma de suas irmãs acabou sendo vendida como gueixa.


Apesar de ter realizado muitos filmes em espaços relativamente curtos, Mizoguchi era muito rigoroso com seus atores e seus planos. Fazia os atores lerem livros e livros para a construção das personagens, ensaiava-os a exaustão e repetia os longos planos, característico de suas obras, até que estivesse satisfeito. O que poderia significar uma centena de vezes.  Esse papel da mulher, em especial da gueixa e o sofrimento inaudível que elas suportam no cotidiano, assim como os dilemas, são o tema de vários filmes. Abaixo, dou um exemplo de um plano (2m50s) que, na minha opinião, é metonímia do trabalho desse diretor:

A Geisha (Gion Bayashi -1953)


http://www.youtube.com/watch?v=kbY5BnPIx4k

2:50 : Plano aberto, com profundidade de campo e sem cortes. A mise en scéne característica de Mizoguchi, em diálogo com seu tema mais comum. Uma mulher está sentada de frente com um homem. Uma espécie de véu nos deixa ver claramente somente a mulher, que está em uma situação desgostosa. Um mobiliário preenche os espaços nos cantos inferiores, à frente do véu. O homem, que é parcialmente visto através do véu, tem motivos escusos para fazer um pedido para a gueixa, que enfrentará uma situação complicada caso não aceite. Ela vira o rosto levemente  em direção à câmera, demonstrando esse desconforto somente para o espectador. Um segundo homem chega em cena, e senta-se atrás da gueixa, de costas. Esse homem faz parte dos planos do primeiro, ainda que compartilhe dos motivos suspeitos.

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