segunda-feira, 30 de julho de 2012

Terra em Transe, 1967 - parte 3


”(...)
Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares – tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!
(...)”

O modelo Marxista dialético da época era estruturado no círculo e, através dessa forma geométrica, Glauber criou o conceito do filme. Há, em Terra em Transe, tanto no aspecto macro, quanto no micro, uma característica cíclica, convergindo de três pontos diferentes: de Marx, do teatro e do próprio autor.

Nas palavras do próprio Glauber, a montagem de Terra em Transe é simultânea e dialética. Ora, a própria estrutura narrativa do filme, a começar pelo clímax, já nos traz essa dialética. O primeiro ato seria a tese; o segundo, a antítese; por fim, síntese em assistir sua morte novamente. - a (re)construção do conceito inicial. Começamos o filme no mar, terminamos na praia; porém a visão é diferente. Espera-se, então, que o significado do filme seja criado no decorrer e após o mesmo, pelo próprio público. É como se Glauber atenta-se às massas para seu papel social e importância na politização.

Há também uma dialética interna nos próprios planos. Os próprios personagens parecem formar uma espécie de tese e antítese. Em um dos diálogos iniciais da renúncia de Vieira, o mesmo diz: “O sangue das massas é sagrado.” Paulo responde: “O sangue não tem importância.”. A própria quebra no raccord é dialética pois desconstrói uma idéia inicial.


Alguns planos se repetem, consecutivamente, porém com alguma diferença na composição. Por exemplo, na cena em que Sara entra no jornal, ocorre uma enorme similaridade nos planos da seqüência (no segundo, o olhar da atriz é diferente e entra uma trilha de fundo). Isso se deve também à montagem simultânea e dialética, onde comparamos a entrada dela em diferentes épocas e reconstruímos um conceito.

No teatro de arena, a atuação precisa ser para todos os ângulos, pela própria disposição dos atores no espaço. Como geralmente é realizado na rua, busca um contato popular. Logo nas cenas iniciais, há uma discussão entre Paulo e o candidato Vieira em que há um movimento de câmera em círculo em volta dos personagens. Glauber bebe dessa fonte ao dirigir os atores e movimentar sua câmera. Ao mesmo tempo em que os planos seqüência trazem uma idéia de urgência e realidade, Rocha quebra a realidade, dando espaço para o pensamento crítico, com as atuações brechtianas.

Como no teatro de arena, a câmera passeia ao redor dos atores analisando as possibilidades e todas as facetas da situação, e trazendo um caráter de  movimento contínuo ao filme, dando ritmo e nos envolvendo em uma espécie de transe. Há também uma definição clara das personagens. Vieira é acuado, em Paulo há indignação e romantismo, e Sara está entre Vieira e Paulo, entre o amor e a suas ideologias.

Enfim, Terra em Transe metaforiza Glauber tropicalista. Do tropicalismo, Rocha cedeu à antropofagia iniciada lá na semana de arte moderna de 1922. Glauber comeu de Guimarães, de Camões, de Shakespeare, de Brecht, de Marx, de Jango, da Ditadura, de Mario Faustino, da Bahia, do Brasil... praticou também a autofagia, comendo dele mesmo e regurgitando tudo em seu cinema – um emaranhado de conceitos, sentimentos, sensações, ideologias, poesias. Além de tudo, é um retrato atemporal da época em que viveu, interagindo com o ambiente sendo influenciado e influenciando.





(...)Envoi
Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não estás mais comigo. Nem contigo:
Tanta violência. Mas tanta ternura.”
                            Mario Faustino

*Publicado originalmente em set/2007 na revista Filmes Polvo 

Filmes Citados
Terra em Transe (Idem, 1967/Glauber Rocha)
Barravento (Idem, 1962/Glauber Rocha)
Pátio (Idem, 1959/Glauber Rocha)
Deus e o Diabo na terra do Sol (Idem, 1964/Glauber Rocha)

Livros Recomendados
Grande Sertão: Veredas (Idem, 1956/João Guimarães Rosa)
Hamlet (Idem, 1600/William Shakespeare)
Cartas ao Mundo (Idem, 1997/Glauber Rocha)
Os Lusíadas (Idem, 1572/ Luíz Vaz de Camões)
Discurso da Servidão Voluntária (Discours de la Servitude Volontaire, 1552/ Étienne de La Boétie)
O Homem e Sua Hora (Idem, 1955/Mário Faustino)
Revolução do Cinema Novo (Idem, 1981/Glauber Rocha)
O Século do Cinema (Idem, 1983/Glauber Rocha)
Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (Idem, 1963/ Glauber Rocha)

domingo, 22 de julho de 2012

Terra em Transe, 1967 - parte 2


”(...)
Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!
(...)”


Em Terra em Transe, o caos é em Eldorado, um país que serve de metonímia para todos os países terceiro-mundistas da América Latina. A perturbação que encontramos nesse país é culpa, em parte, dos governantes, e em outra instância, do próprio povo. Assim como o próprio contexto histórico, provavelmente análogo ao brasileiro. Glauber, para tal, abandona as influências do cordel e de Rosa, em função do discurso, aderindo à poesia épica de Camões e shakespeariana de Hamlet. Assim, constrói uma tragédia tropical, e busca referências para a construção do discurso na política, teatro, cinema, literatura, poesia, história, etc. Provando-se mais uma vez, um ser antropofágico.

Do teatro, segue a linha de Brecht. As atuações alegóricas e expressivas estão a todo tempo distraindo-nos do transe, lembrando que aquilo é um filme e, portanto, devemos estabelecer algum senso crítico em relação ao discurso proferido por ele. Também há referências ao teatro grego e as tragédias de Shakespeare. Paulo Martins foi discípulo de Porfírio Diáz, e deve se voltar contra ele. Nas tragédias gregas, os protagonistas eram descendentes dos Deuses, e se voltam contra eles; sendo que, por essa ousadia, haviam de morrer. Enquanto isso, nas comédias (essas, essencialmente críticas) o protagonista advém do povo. Sendo assim, esse homem comum da polis possui força de sátira e crítica acentuadas. De Shakespeare, Glauber retoma o discurso da não ação encontrado em Hamlet, da eterna dúvida: Ser ou não ser?


Terra em Transe se pretende um filme político, portanto, na medida em que é uma tragédia tropical, como já dito, representando o próprio Glauber em todas suas facetas. O viés político do filme, no entanto, advém mais pelo diretor (indissociável da obra) ser uma pessoa extremamente politizada e ter uma visão de cinema enquanto instrumento transformador da realidade (ao mesmo tempo em que é transformado por ela). Assim, o cinema de Glauber toma o papel das ciências sociais na análise crítica da realidade.

Para tal fim Rocha cria uma caricatura do Brasil, Eldorado: seu ambiente, clima, relações de poder, figuras políticas, povo e artista (o poeta como agente catalisador da mudança). O poeta representaria o próprio Glauber em sua tentativa de transformação social através do cinema. Assim, parafraseando Jean-Claude Bernadet: “(Glauber) faz um filme baseado na metáfora e que é um processo de metáfora (...) enquanto ela expressa uma não-ação” ou seja, ele ainda critica a própria metáfora por não ser uma ação concreta na realidade.

Essa não-ação, a despolitização das massas é algo incômodo. Tanto para Glauber, quanto para Paulo Martins. De certa forma, o diretor retoma o conceito de Etienne de La Boétie  no Discurso da Servidão Voluntária no qual é invertido o senso comum sobre as relações de poder. No discurso, a servidão do povo é voluntária, a manutenção das classes advém da não luta por tal mudança. Sendo assim, cada um é culpado por aceitar a servidão, desconstruindo o conceito de massa inoperante ao mesmo tempo em que metaforiza isso. Nas palavras de Paulo: “Quem são os inocentes?”.

 *Publicado originalmente em set/2007 na revista Filmes Polvo 

Filmes Citados
Terra em Transe (Idem, 1967/Glauber Rocha)
Barravento (Idem, 1962/Glauber Rocha)
Pátio (Idem, 1959/Glauber Rocha)
Deus e o Diabo na terra do Sol (Idem, 1964/Glauber Rocha)

Livros Recomendados
Grande Sertão: Veredas (Idem, 1956/João Guimarães Rosa)
Hamlet (Idem, 1600/William Shakespeare)
Cartas ao Mundo (Idem, 1997/Glauber Rocha)
Os Lusíadas (Idem, 1572/ Luíz Vaz de Camões)
Discurso da Servidão Voluntária (Discours de la Servitude Volontaire, 1552/ Étienne de La Boétie)
O Homem e Sua Hora (Idem, 1955/Mário Faustino)
Revolução do Cinema Novo (Idem, 1981/Glauber Rocha)
O Século do Cinema (Idem, 1983/Glauber Rocha)
Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (Idem, 1963/ Glauber Rocha)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Terra em Transe, 1967 - parte 1


Balada
(Em memória de um poeta suicida)
“Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o facto
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(tanta violência, mas tanta ternura)
(...)”

Mesmo quarenta anos após seu lançamento, o transe continua. Falar de Terra em Transe é falar da essência de Glauber. Todos podem dizer que ele sempre foi um louco, um romântico, um anarquista; mas não há como negar sua genialidade. Não há distinção entre pessoal e profissional, Glauber e seu cinema formam uma única entidade: um emaranhado de ideologias, pensamentos, delírios, frustrações e anseios. Fazer cinema não era, pois, um capricho, mas uma necessidade - uma forma de realização dos desejos internos provenientes da inquietude (ou do nobre pacto entre cosmos sangrento e a alma pura) inerente à vida. A integração do homem no espaço que ocupa, modificando e sendo modificado. Portanto, se seus filmes pecam é por excesso de sentido e humanismo, tanto que há uma sensação de desprazer em nossa postura apolítica e uma urgência na mudança da realidade social ali escancarada (mesmo que maquiada de poesia). Seus filmes são frutos de algo absolutamente visceral. Ora, o louco nada mais é do que aquele preso à própria realidade.

Pode-se dizer que Terra em Transe é uma reestruturação dos valores (e aquisição de novos) encontrados em seus filmes anteriores. Carrega um pouco do experimentalismo de Pátio, da preocupação sócio-racial de Barravento e da eztetyka da fome aliada a análise antropológica contida em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Sendo que, com este último, Terra em Transe possui uma forte ligação.

“O sertão vai virar mar, e o mar virar sertão.”


A literatura de cordel, característica do nordeste do país, é assim chamada por ser folhetos vendidos em cordões pendurados em feiras, mercados e bancas de jornal. Muitas vezes, os autores desse tipo de folheto não sabem escrever e declamam sua obra ao público. Também é dita literatura oral por essa mesma causa. A obra, portanto, é concebida em versos, com rima e métrica. Glauber Rocha nasceu em Vitória da Conquista, na Bahia, e desde pequeno teve contato com a cultura nordestina. Isso explica a linguagem de Deus e o Diabo e sua aproximação com a seca. Glauber tem um quê de Guimarães Rosa também: “O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca...” – As palavras roseanas de Rioblado em Grande Sertão Veredas não soariam estranhas em Rocha .

O sertão, retomando Guimarães Rosa, possui diversos significados. Sertão é o espaço geográfico -  uma realidade social e política; também é o mundo humano, o ser-tão humano;  e, por último, o espiritual através do ser-tão sagrado. No entanto, a interação e junção dos significados formam uma só coisa, um só “sertão”. Enfim, voltando ao Deus e o Diabo, a música de fundo anuncia em conjunto com um maravilhoso travelling,: O sertão vai virar mar, e o mar virar sertão. O mar, no caso, como metáfora de libertação e salvação.

Glauber abandona a luta do povo pela sobrevivência de Deus e o Diabo e adota a própria perspectiva burguesa, de onde enxerga a aparente inércia das classes baixa e média e a luta pela manutenção do status social das classes mais favorecidas através das relações de poder. E não é a toa, portanto, que o mar mostrado no início de Terra em Transe seja a confirmação de que o mar virou sertão; afinal, a terra é do homem, não é de Deus nem do Diabo. Trazendo então a responsabilidade de todos os atos para nós mesmos, abandonando qualquer dualismo bem contra mau e aprofundando no discurso político.

Transe, não transição, inércia...

 *Publicado originalmente em set/2007 na revista Filmes Polvo 

Filmes Citados
Terra em Transe (Idem, 1967/Glauber Rocha)
Barravento (Idem, 1962/Glauber Rocha)
Pátio (Idem, 1959/Glauber Rocha)
Deus e o Diabo na terra do Sol (Idem, 1964/Glauber Rocha)

Livros Recomendados
Grande Sertão: Veredas (Idem, 1956/João Guimarães Rosa)
Hamlet (Idem, 1600/William Shakespeare)
Cartas ao Mundo (Idem, 1997/Glauber Rocha)
Os Lusíadas (Idem, 1572/ Luíz Vaz de Camões)
Discurso da Servidão Voluntária (Discours de la Servitude Volontaire, 1552/ Étienne de La Boétie)
O Homem e Sua Hora (Idem, 1955/Mário Faustino)
Revolução do Cinema Novo (Idem, 1981/Glauber Rocha)
O Século do Cinema (Idem, 1983/Glauber Rocha)
Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (Idem, 1963/ Glauber Rocha)