”(...)
Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares – tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares – tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!
(...)”
O modelo Marxista dialético da época era estruturado no círculo e, através dessa forma geométrica, Glauber criou o conceito do filme. Há, em Terra em Transe, tanto no aspecto macro, quanto no micro, uma característica cíclica, convergindo de três pontos diferentes: de Marx, do teatro e do próprio autor.
Nas palavras do próprio Glauber, a montagem de Terra em Transe é simultânea e dialética. Ora, a própria estrutura narrativa do filme, a começar pelo clímax, já nos traz essa dialética. O primeiro ato seria a tese; o segundo, a antítese; por fim, síntese em assistir sua morte novamente. - a (re)construção do conceito inicial. Começamos o filme no mar, terminamos na praia; porém a visão é diferente. Espera-se, então, que o significado do filme seja criado no decorrer e após o mesmo, pelo próprio público. É como se Glauber atenta-se às massas para seu papel social e importância na politização.
Há também uma dialética interna nos próprios planos. Os próprios personagens parecem formar uma espécie de tese e antítese. Em um dos diálogos iniciais da renúncia de Vieira, o mesmo diz: “O sangue das massas é sagrado.” Paulo responde: “O sangue não tem importância.”. A própria quebra no raccord é dialética pois desconstrói uma idéia inicial.
Alguns planos se repetem, consecutivamente, porém com alguma diferença na composição. Por exemplo, na cena em que Sara entra no jornal, ocorre uma enorme similaridade nos planos da seqüência (no segundo, o olhar da atriz é diferente e entra uma trilha de fundo). Isso se deve também à montagem simultânea e dialética, onde comparamos a entrada dela em diferentes épocas e reconstruímos um conceito.
No teatro de arena, a atuação precisa ser para todos os ângulos, pela própria disposição dos atores no espaço. Como geralmente é realizado na rua, busca um contato popular. Logo nas cenas iniciais, há uma discussão entre Paulo e o candidato Vieira em que há um movimento de câmera em círculo em volta dos personagens. Glauber bebe dessa fonte ao dirigir os atores e movimentar sua câmera. Ao mesmo tempo em que os planos seqüência trazem uma idéia de urgência e realidade, Rocha quebra a realidade, dando espaço para o pensamento crítico, com as atuações brechtianas.
Como no teatro de arena, a câmera passeia ao redor dos atores analisando as possibilidades e todas as facetas da situação, e trazendo um caráter de movimento contínuo ao filme, dando ritmo e nos envolvendo em uma espécie de transe. Há também uma definição clara das personagens. Vieira é acuado, em Paulo há indignação e romantismo, e Sara está entre Vieira e Paulo, entre o amor e a suas ideologias.
Enfim, Terra em Transe metaforiza Glauber tropicalista. Do tropicalismo, Rocha cedeu à antropofagia iniciada lá na semana de arte moderna de 1922. Glauber comeu de Guimarães, de Camões, de Shakespeare, de Brecht, de Marx, de Jango, da Ditadura, de Mario Faustino, da Bahia, do Brasil... praticou também a autofagia, comendo dele mesmo e regurgitando tudo em seu cinema – um emaranhado de conceitos, sentimentos, sensações, ideologias, poesias. Além de tudo, é um retrato atemporal da época em que viveu, interagindo com o ambiente sendo influenciado e influenciando.
(...)Envoi
Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não estás mais comigo. Nem contigo:
Tanta violência. Mas tanta ternura.”
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não estás mais comigo. Nem contigo:
Tanta violência. Mas tanta ternura.”
Mario Faustino
*Publicado originalmente em set/2007 na revista Filmes Polvo
Filmes Citados
Terra em Transe (Idem, 1967/Glauber Rocha)
Barravento (Idem, 1962/Glauber Rocha)
Pátio (Idem, 1959/Glauber Rocha)
Deus e o Diabo na terra do Sol (Idem, 1964/Glauber Rocha)
Livros Recomendados
Grande Sertão: Veredas (Idem, 1956/João Guimarães Rosa)
Hamlet (Idem, 1600/William Shakespeare)
Cartas ao Mundo (Idem, 1997/Glauber Rocha)
Os Lusíadas (Idem, 1572/ Luíz Vaz de Camões)
Discurso da Servidão Voluntária (Discours de la Servitude Volontaire, 1552/ Étienne de La Boétie)
O Homem e Sua Hora (Idem, 1955/Mário Faustino)
Revolução do Cinema Novo (Idem, 1981/Glauber Rocha)
O Século do Cinema (Idem, 1983/Glauber Rocha)
Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (Idem, 1963/ Glauber Rocha)



