”(...)
Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!
(...)”
Em Terra em Transe, o caos é em Eldorado, um país que serve de metonímia para todos os países terceiro-mundistas da América Latina. A perturbação que encontramos nesse país é culpa, em parte, dos governantes, e em outra instância, do próprio povo. Assim como o próprio contexto histórico, provavelmente análogo ao brasileiro. Glauber, para tal, abandona as influências do cordel e de Rosa, em função do discurso, aderindo à poesia épica de Camões e shakespeariana de Hamlet. Assim, constrói uma tragédia tropical, e busca referências para a construção do discurso na política, teatro, cinema, literatura, poesia, história, etc. Provando-se mais uma vez, um ser antropofágico.
Do teatro, segue a linha de Brecht. As atuações alegóricas e expressivas estão a todo tempo distraindo-nos do transe, lembrando que aquilo é um filme e, portanto, devemos estabelecer algum senso crítico em relação ao discurso proferido por ele. Também há referências ao teatro grego e as tragédias de Shakespeare. Paulo Martins foi discípulo de Porfírio Diáz, e deve se voltar contra ele. Nas tragédias gregas, os protagonistas eram descendentes dos Deuses, e se voltam contra eles; sendo que, por essa ousadia, haviam de morrer. Enquanto isso, nas comédias (essas, essencialmente críticas) o protagonista advém do povo. Sendo assim, esse homem comum da polis possui força de sátira e crítica acentuadas. De Shakespeare, Glauber retoma o discurso da não ação encontrado em Hamlet, da eterna dúvida: Ser ou não ser?
Terra em Transe se pretende um filme político, portanto, na medida em que é uma tragédia tropical, como já dito, representando o próprio Glauber em todas suas facetas. O viés político do filme, no entanto, advém mais pelo diretor (indissociável da obra) ser uma pessoa extremamente politizada e ter uma visão de cinema enquanto instrumento transformador da realidade (ao mesmo tempo em que é transformado por ela). Assim, o cinema de Glauber toma o papel das ciências sociais na análise crítica da realidade.
Para tal fim Rocha cria uma caricatura do Brasil, Eldorado: seu ambiente, clima, relações de poder, figuras políticas, povo e artista (o poeta como agente catalisador da mudança). O poeta representaria o próprio Glauber em sua tentativa de transformação social através do cinema. Assim, parafraseando Jean-Claude Bernadet: “(Glauber) faz um filme baseado na metáfora e que é um processo de metáfora (...) enquanto ela expressa uma não-ação” ou seja, ele ainda critica a própria metáfora por não ser uma ação concreta na realidade.
Essa não-ação, a despolitização das massas é algo incômodo. Tanto para Glauber, quanto para Paulo Martins. De certa forma, o diretor retoma o conceito de Etienne de La Boétie no Discurso da Servidão Voluntária no qual é invertido o senso comum sobre as relações de poder. No discurso, a servidão do povo é voluntária, a manutenção das classes advém da não luta por tal mudança. Sendo assim, cada um é culpado por aceitar a servidão, desconstruindo o conceito de massa inoperante ao mesmo tempo em que metaforiza isso. Nas palavras de Paulo: “Quem são os inocentes?”.
*Publicado originalmente em set/2007 na revista Filmes Polvo
Filmes Citados
Terra em Transe (Idem, 1967/Glauber Rocha)
Barravento (Idem, 1962/Glauber Rocha)
Pátio (Idem, 1959/Glauber Rocha)
Deus e o Diabo na terra do Sol (Idem, 1964/Glauber Rocha)
Livros Recomendados
Grande Sertão: Veredas (Idem, 1956/João Guimarães Rosa)
Hamlet (Idem, 1600/William Shakespeare)
Cartas ao Mundo (Idem, 1997/Glauber Rocha)
Os Lusíadas (Idem, 1572/ Luíz Vaz de Camões)
Discurso da Servidão Voluntária (Discours de la Servitude Volontaire, 1552/ Étienne de La Boétie)
O Homem e Sua Hora (Idem, 1955/Mário Faustino)
Revolução do Cinema Novo (Idem, 1981/Glauber Rocha)
O Século do Cinema (Idem, 1983/Glauber Rocha)
Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (Idem, 1963/ Glauber Rocha)

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