quinta-feira, 12 de julho de 2012

Terra em Transe, 1967 - parte 1


Balada
(Em memória de um poeta suicida)
“Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o facto
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(tanta violência, mas tanta ternura)
(...)”

Mesmo quarenta anos após seu lançamento, o transe continua. Falar de Terra em Transe é falar da essência de Glauber. Todos podem dizer que ele sempre foi um louco, um romântico, um anarquista; mas não há como negar sua genialidade. Não há distinção entre pessoal e profissional, Glauber e seu cinema formam uma única entidade: um emaranhado de ideologias, pensamentos, delírios, frustrações e anseios. Fazer cinema não era, pois, um capricho, mas uma necessidade - uma forma de realização dos desejos internos provenientes da inquietude (ou do nobre pacto entre cosmos sangrento e a alma pura) inerente à vida. A integração do homem no espaço que ocupa, modificando e sendo modificado. Portanto, se seus filmes pecam é por excesso de sentido e humanismo, tanto que há uma sensação de desprazer em nossa postura apolítica e uma urgência na mudança da realidade social ali escancarada (mesmo que maquiada de poesia). Seus filmes são frutos de algo absolutamente visceral. Ora, o louco nada mais é do que aquele preso à própria realidade.

Pode-se dizer que Terra em Transe é uma reestruturação dos valores (e aquisição de novos) encontrados em seus filmes anteriores. Carrega um pouco do experimentalismo de Pátio, da preocupação sócio-racial de Barravento e da eztetyka da fome aliada a análise antropológica contida em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Sendo que, com este último, Terra em Transe possui uma forte ligação.

“O sertão vai virar mar, e o mar virar sertão.”


A literatura de cordel, característica do nordeste do país, é assim chamada por ser folhetos vendidos em cordões pendurados em feiras, mercados e bancas de jornal. Muitas vezes, os autores desse tipo de folheto não sabem escrever e declamam sua obra ao público. Também é dita literatura oral por essa mesma causa. A obra, portanto, é concebida em versos, com rima e métrica. Glauber Rocha nasceu em Vitória da Conquista, na Bahia, e desde pequeno teve contato com a cultura nordestina. Isso explica a linguagem de Deus e o Diabo e sua aproximação com a seca. Glauber tem um quê de Guimarães Rosa também: “O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca...” – As palavras roseanas de Rioblado em Grande Sertão Veredas não soariam estranhas em Rocha .

O sertão, retomando Guimarães Rosa, possui diversos significados. Sertão é o espaço geográfico -  uma realidade social e política; também é o mundo humano, o ser-tão humano;  e, por último, o espiritual através do ser-tão sagrado. No entanto, a interação e junção dos significados formam uma só coisa, um só “sertão”. Enfim, voltando ao Deus e o Diabo, a música de fundo anuncia em conjunto com um maravilhoso travelling,: O sertão vai virar mar, e o mar virar sertão. O mar, no caso, como metáfora de libertação e salvação.

Glauber abandona a luta do povo pela sobrevivência de Deus e o Diabo e adota a própria perspectiva burguesa, de onde enxerga a aparente inércia das classes baixa e média e a luta pela manutenção do status social das classes mais favorecidas através das relações de poder. E não é a toa, portanto, que o mar mostrado no início de Terra em Transe seja a confirmação de que o mar virou sertão; afinal, a terra é do homem, não é de Deus nem do Diabo. Trazendo então a responsabilidade de todos os atos para nós mesmos, abandonando qualquer dualismo bem contra mau e aprofundando no discurso político.

Transe, não transição, inércia...

 *Publicado originalmente em set/2007 na revista Filmes Polvo 

Filmes Citados
Terra em Transe (Idem, 1967/Glauber Rocha)
Barravento (Idem, 1962/Glauber Rocha)
Pátio (Idem, 1959/Glauber Rocha)
Deus e o Diabo na terra do Sol (Idem, 1964/Glauber Rocha)

Livros Recomendados
Grande Sertão: Veredas (Idem, 1956/João Guimarães Rosa)
Hamlet (Idem, 1600/William Shakespeare)
Cartas ao Mundo (Idem, 1997/Glauber Rocha)
Os Lusíadas (Idem, 1572/ Luíz Vaz de Camões)
Discurso da Servidão Voluntária (Discours de la Servitude Volontaire, 1552/ Étienne de La Boétie)
O Homem e Sua Hora (Idem, 1955/Mário Faustino)
Revolução do Cinema Novo (Idem, 1981/Glauber Rocha)
O Século do Cinema (Idem, 1983/Glauber Rocha)
Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (Idem, 1963/ Glauber Rocha)



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