segunda-feira, 4 de junho de 2012

Persona - Parte 2

Retomando Persona após os créditos iniciais, então, somos apresentados à enfermeira Alma e ao estado da atriz Elizabeth Vogler – esta emudece após a apresentação da peça Electra, não apresentando nenhum diagnóstico fisiológico. Na conversa entre a doutora e Alma, a decupagem difere muito da narrativa clássica. Bergman não está muito preocupado em jogar com planos e contraplanos. Na maioria do tempo, apenas Alma está em quadro, esteja perguntando ou escutando; e tentamos deduzir as reações da doutora. Estamos como espectadores ativos, podemos supor o que acontece no contracampo sem precisar da imagem, ainda que não haja certeza no que realmente ocorre.

Voltando ao caso de Elizabeth Vogler, a peça Electra de Sófocles (o mesmo autor de Édipo Rei) é de origem grega e sua personagem principal, homônima à peça, arquiteta a morte da mãe por a mesma ter matado o pai. No fim, arrepende-se por que a mãe havia tratado ela mal apenas para protegê-la da fúria Egisto, o assassino de seu ex-esposo e atual amante. Não é à toa que seja citada tal peça, já que as duas personagens principais enfrentam (e também Bergman de certa forma) problemas com a maternidade, como trarei mais abaixo. Ambas são, também, parecidas fisicamente, e aparecem na maioria das vezes juntas no mesmo quadro. Por vezes, Alma sobrepõe o rosto da atriz, por outras, o contrário - fortalecendo a idéia de que são complementares.

O silêncio da atriz seria um retorno a um estado primitivo, onde se busca o mínimo de interferência do mundo externo. Um estado anterior, infantil de certa forma, de calmaria, onde não é necessário atuação nem máscara. Podendo aceitar toda sua culpa sem ferir o sentimento alheio. No entanto Vogler se incomoda ao ouvir no rádio a palavra perdão. Ela não deseja pedir desculpas pelo o que sente, mas ao mesmo tempo, sente culpa por sentir.

Elizabeth e Alma, então, vão à casa de campo da doutora. Há uma quebra no ritmo ao introduzir um narrador ao filme. E logo após um diálogo no qual Alma diz: “banal como uma ficção”, a câmera se aproxima quebrando um longo o plano fixo e nos acordando para o fato de que aquilo é um filme. É como se Bergman colocasse constantemente o filme em xeque, se sua arte tem alguma relevância no mundo real ou se sua expressão são como as da atriz, sem voz.

Ao longo do filme, ele discute bastante o tema da arte. Logo no princípio, um diálogo de Alma define a arte como de vital importância para os que têm problemas. Mais adiante, se sente usada, achando que a arte deveria ser criada por compaixão a fim de ajudar as pessoas. O filme, então, deve ser considerado arte? Afinal, responde apenas a anseios internos e particulares do próprio diretor, pois é um alívio realizar de alguma forma algo que está inquieto n’alma. Bergman está claramente em dúvida no que diz respeito ao seu papel como criador; é uma dúvida primariamente existencial.

Alma, contando apenas com a escuta da atriz, se abre de maneira como nunca havia feito antes. Conta de seus temores mais internos, de sua culpa, de seus anseios. Conta de uma orgia na praia, que quando jovem, lhe custou uma gravidez precedida de aborto. Impossível não citar a força de expressão desse monólogo. É uma das cenas mais eróticas do cinema, e conta apenas com a voz e o enquadramento da face da atriz. Bergman era um gênio na direção de atores, sabendo extrair ao máximo cada expressão de seus atores.


Em certo ponto, não conseguimos diferenciar se as ações de Alma são controladas por Vogler, como se a persona da atriz se expressasse através da enfermeira. Então, ocorre outra cena das mais importantes do cinema. No monólogo, Alma descortina o passado de Vogler – esta engravidou do marido como havia planejado, mas desde o princípio não desejava realmente o filho. Por mais que demonstrasse toda felicidade, no fundo odiava a criança. Logo que nasceu, o repúdio aumentou, assim como a culpa pelo fato da criança amar a mãe, mesmo com tamanho ódio. Nesse ponto, Bergman enquadrou somente Vogler, e repete o mesmo diálogo, agora com as expressões de Alma. Assim, extraiu o máximo de expressividade do diálogo e serviu à narrativa de forma singular. O diálogo se repete justamente para se igualar a enfermeira e a atriz. As duas em uníssono.

Portanto, Bergman é a síntese de Alma e Vogler. Enquanto Alma seria sua persona social, Elizabeth seria sua persona interna, o verdadeiro artista. Somente através de Alma, Vogler consegue se expressar. Somente através de uma máscara social, o diretor consegue transparecer seu mundo interior. E ao mesmo tempo sua máscara social aborta seus filmes (ignora, evita); e a interna finge amar, mas renega. Aí está o problema de maternidade no próprio Bergman. Sua arte – expressão de sua alma – é um filho indesejado? Por mais que todos lhe dizem que ele está bonito “grávido”, ele não consegue conceber nada além de total desprezo para com o filho.

Finalizando, é impossível separar Ingmar Bergman de suas obras. Elas são o retrato de sua mente de maneira visceral. Essa inquietação característica de todo ser humano, ainda que particular, é fortalecida e se torna universal porque o diretor faz uso do espectador na construção final do conceito do filme. No mesmo dia da morte de outro gênio do cinema, Antonioni, Bergman encontra fim para suas inquietações. Seu filho, o cinema, no entanto, não encontrará o ocaso por não fazer parte do mesmo mundo mortal que o próprio pai.

Filmes Citados:

Persona (Kinematografi, 1966/Ingmar Bergman)




*Publicado originalmente em ago/2007 na revista Filmes Polvo 

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