Ingmar
Bergman foi certamente um de nossos maiores e mais intensos cineastas. É uma
perda irreparável para o cinema, que é órfão de mais um pai que sabia manipular
o filho de maneira ímpar. Esse pai dizia muito através de pequenos gestos do
filho –um plano, um enquadramento, uma luz, uma sombra, um olhar... e com tão
pouco, era capaz de nos mostrar as vísceras de sua própria alma, trazendo ao
consciente algo que o inconsciente tentou outrora reprimir.
Reconhece-se
sua grandiosidade pelos seus filmes tão pessoais e ao mesmo tempo universais;
dizendo de si, ele dizia de cada um de nós, por vezes mais do que nós mesmos
podemos dizer. E o filho não poupa ninguém, nem o pai, nem a nós; talvez seja
por isso o sentimento de devastação que sentimos após assistirmos a um filme de
Bergman. Como se nossos segredos mais internos estivessem na tela do cinema,
onde todos pudessem ver, ouvir e sentir.
Uma
preocupação do pai era que o filho não tratasse os amantes (no caso, os que
assistem) com desprezo: nem tudo é dito e nem tudo é mostrado em seus filmes. O
espectador tem papel ativo, pois preenche os espaços deixados pelo diretor. A
criação da significância do filme é estritamente particular e única. Cada um
sente algo diferente ao se deparar com os filmes de Bergman, e ninguém sai
ileso. Em sua extensa obra, alguns temas são recorrentes: a metalinguagem, a
arte, a religião, a morte, culpa, angústia, solidão, feminino. Esse universo
feminino serve como metonímia do próprio ser humano, talvez porque nas mulheres
a expressividade do mundo interno é maior do que nos homens. E em Persona, vários desses temas são
aparentes, sendo a metalinguagem, talvez, a mais explicitada.
No
teatro grego, uma das características dos atores eram as máscaras, que ajudavam
na criação e identificação das personagens. Essas máscaras eram chamadas de personas. Atualmente, o termo ampliou-se
de certa maneira a abarcar novos significados, servindo também para se referir
à “máscara” social que utilizamos a todo o tempo para interagir com os agentes
do mundo externo, e às vezes do interno.
No
filme Persona, somos freqüentemente
lembrados de que aquela experiência não passa de uma película e por isso
qualquer significação é externa às imagens. Nos é apresentado um confronto
entre duas personalidades. Impossível dizer que há um significado somente, como
em qualquer obra de arte inesgotável de interpretação. O que a obra diz, diz
para cada um internamente. Portanto, não ouso dizer que esgotarei as
possibilidades da obra, é apenas uma interpretação possível.
Um
conjunto de imagens alternadas nos dá, desde o início, o clima que irá
perpassar toda a projeção. Há certas quebras propositais no ritmo, como se ele
quisesse nos lembrar a todo instante, ressaltando seu caráter ficcional. A
princípio, a luz e o fogo, referem-se ao início da humanidade, metaforiza a
formação da imagem e a criação do próprio cinema. Seguem números
característicos de princípio de filme, junto com a palavra “start”. Onde percebemos que o cinema
ultrapassa as fronteiras da projeção, é algo anterior. E seguindo o paralelo
com a formação da humanidade, é mostrado um pênis – remete à culpa, ao sexo, a
reprodução – partes integrantes da sociedade desde os primórdios.
Se
antes as imagens eram apenas flashes aparentemente desconexos, agora apresentam
certa permanência e nos mostram um filme sendo projetado. O projetor trava, a
imagem fica estática. Porém, o cinema continua – é a maneira de Bergman
questionar as fronteiras do cinema como imagem em movimento ou parada. Cinema é
tudo. Então, essa imagem funde-se ao conceito de humanidade. Surge a ficção, a
captura de imagens do cotidiano e o horror. A ovelha que aparece sendo morta
não deixa de ser sacrificada por nós, e anterior mesmo até ao sacrifício humano
bíblico. É, de certo modo, um
questionamento do sacrifício religioso.
Passados
apenas dois minutos e meio, as imagens externas nos dão certa localidade.
Através de cortes secos, somos levados para dentro de um edifício - um hospital
onde velhos esperam a morte. Há, também, um garoto jovem, provavelmente a
representação do próprio Bergman. Este se levanta e contempla uma imagem que se
alterna entre dois rostos, o de Bibi Andersson e Liv Ullmann. Desta vez, é o
diretor se colocando também como espectador, já que só pode contemplar o que
ocorre no interior das duas mulheres, que se confundem. Talvez essas duas
partes sejam internas, opostas e complementares, formadoras da psiquê do próprio Bergman.

Aparecem
os créditos iniciais - branco com letreiros pretos. A inversão do que
normalmente ocorre, dá justificativa para que a história a seguir inverta
também o olhar - ao invés do ponto de vista comumente externo, seja realmente
um olhar interno. O preto e o branco são
cores opostas e complementares em um filme sem cores. Juntos, formam as
tonalidades de cinza, que irá trazer à percepção os contornos e a imagem
formada. Os créditos, sendo assim, são as pessoas que juntas fizeram o filme, e
nada mais coerente que sejam colocadas alternando-os com personagens, locais e
ações que, separadamente não tem o mesmo significado do que juntas. Da
coletividade da imagem e das pessoas, o filme é formado. Após os créditos a
narrativa, até então mutante, encontra certa estabilidade.
Filmes Citados:
Persona (Kinematografi, 1966/Ingmar Bergman)
*Publicado originalmente em ago/2007 na revista Filmes Polvo
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