terça-feira, 29 de maio de 2012

Persona - Parte 1


Ingmar Bergman foi certamente um de nossos maiores e mais intensos cineastas. É uma perda irreparável para o cinema, que é órfão de mais um pai que sabia manipular o filho de maneira ímpar. Esse pai dizia muito através de pequenos gestos do filho –um plano, um enquadramento, uma luz, uma sombra, um olhar... e com tão pouco, era capaz de nos mostrar as vísceras de sua própria alma, trazendo ao consciente algo que o inconsciente tentou outrora reprimir.

Reconhece-se sua grandiosidade pelos seus filmes tão pessoais e ao mesmo tempo universais; dizendo de si, ele dizia de cada um de nós, por vezes mais do que nós mesmos podemos dizer. E o filho não poupa ninguém, nem o pai, nem a nós; talvez seja por isso o sentimento de devastação que sentimos após assistirmos a um filme de Bergman. Como se nossos segredos mais internos estivessem na tela do cinema, onde todos pudessem ver, ouvir e sentir.

Uma preocupação do pai era que o filho não tratasse os amantes (no caso, os que assistem) com desprezo: nem tudo é dito e nem tudo é mostrado em seus filmes. O espectador tem papel ativo, pois preenche os espaços deixados pelo diretor. A criação da significância do filme é estritamente particular e única. Cada um sente algo diferente ao se deparar com os filmes de Bergman, e ninguém sai ileso. Em sua extensa obra, alguns temas são recorrentes: a metalinguagem, a arte, a religião, a morte, culpa, angústia, solidão, feminino. Esse universo feminino serve como metonímia do próprio ser humano, talvez porque nas mulheres a expressividade do mundo interno é maior do que nos homens. E em Persona, vários desses temas são aparentes, sendo a metalinguagem, talvez, a mais explicitada.

No teatro grego, uma das características dos atores eram as máscaras, que ajudavam na criação e identificação das personagens. Essas máscaras eram chamadas de personas. Atualmente, o termo ampliou-se de certa maneira a abarcar novos significados, servindo também para se referir à “máscara” social que utilizamos a todo o tempo para interagir com os agentes do mundo externo, e às vezes do interno.

No filme Persona, somos freqüentemente lembrados de que aquela experiência não passa de uma película e por isso qualquer significação é externa às imagens. Nos é apresentado um confronto entre duas personalidades. Impossível dizer que há um significado somente, como em qualquer obra de arte inesgotável de interpretação. O que a obra diz, diz para cada um internamente. Portanto, não ouso dizer que esgotarei as possibilidades da obra, é apenas uma interpretação possível.

Um conjunto de imagens alternadas nos dá, desde o início, o clima que irá perpassar toda a projeção. Há certas quebras propositais no ritmo, como se ele quisesse nos lembrar a todo instante, ressaltando seu caráter ficcional. A princípio, a luz e o fogo, referem-se ao início da humanidade, metaforiza a formação da imagem e a criação do próprio cinema. Seguem números característicos de princípio de filme, junto com a palavra “start”. Onde percebemos que o cinema ultrapassa as fronteiras da projeção, é algo anterior. E seguindo o paralelo com a formação da humanidade, é mostrado um pênis – remete à culpa, ao sexo, a reprodução – partes integrantes da sociedade desde os primórdios.

Se antes as imagens eram apenas flashes aparentemente desconexos, agora apresentam certa permanência e nos mostram um filme sendo projetado. O projetor trava, a imagem fica estática. Porém, o cinema continua – é a maneira de Bergman questionar as fronteiras do cinema como imagem em movimento ou parada. Cinema é tudo. Então, essa imagem funde-se ao conceito de humanidade. Surge a ficção, a captura de imagens do cotidiano e o horror. A ovelha que aparece sendo morta não deixa de ser sacrificada por nós, e anterior mesmo até ao sacrifício humano bíblico.  É, de certo modo, um questionamento do sacrifício religioso.

Passados apenas dois minutos e meio, as imagens externas nos dão certa localidade. Através de cortes secos, somos levados para dentro de um edifício - um hospital onde velhos esperam a morte. Há, também, um garoto jovem, provavelmente a representação do próprio Bergman. Este se levanta e contempla uma imagem que se alterna entre dois rostos, o de Bibi Andersson e Liv Ullmann. Desta vez, é o diretor se colocando também como espectador, já que só pode contemplar o que ocorre no interior das duas mulheres, que se confundem. Talvez essas duas partes sejam internas, opostas e complementares,  formadoras da psiquê do próprio Bergman.


Aparecem os créditos iniciais - branco com letreiros pretos. A inversão do que normalmente ocorre, dá justificativa para que a história a seguir inverta também o olhar - ao invés do ponto de vista comumente externo, seja realmente um olhar interno.  O preto e o branco são cores opostas e complementares em um filme sem cores. Juntos, formam as tonalidades de cinza, que irá trazer à percepção os contornos e a imagem formada. Os créditos, sendo assim, são as pessoas que juntas fizeram o filme, e nada mais coerente que sejam colocadas alternando-os com personagens, locais e ações que, separadamente não tem o mesmo significado do que juntas. Da coletividade da imagem e das pessoas, o filme é formado. Após os créditos a narrativa, até então mutante, encontra certa estabilidade.




Filmes Citados:

Persona (Kinematografi, 1966/Ingmar Bergman)

*Publicado originalmente em ago/2007 na revista Filmes Polvo 




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