segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ghost in The Shell


O filme foi baseado em mangá homônimo lançado em 1989, e surpreendentemente, mais interessante que o original. O que tornou isso possível foi a tradução das questões que foram propostas pelo material original abrindo mão da forma que tinha – alcançando a narrativa cinematográfica através apenas do discurso. Na linguagem do mangá, a história segue o padrão normal de identificação com a personagem para então entrar na trama; tendo uma visão mais plana das personagens. Já o longa é muito mais contido e intimista, procurando menos identificação com as personagens de maneira clara e mais a problematização filosófica proposta.

Ghost in the Shell (GITS) parte do contexto futurista, onde o avanço médico e tecnológico provocou uma aproximação dos homens com as máquinas. Apesar disso, não há relativa mudança nas relações humanas e com o meio - há corrupção, poluição, problemas conjugais e afins. Não importando em que grau de desenvolvimento tecnológico a sociedade se encontra: o homem é um homem e age como tal.

Enquanto a trilogia Matrix, que claramente foi influenciada pelo longa,  usa o contexto futurista para espetáculo visual; GITS parte do contexto e da trama como meios para estabelecer um discurso cartesiano sobre o corpo e a alma. Descartes afirmava que o ser humano é composto de um corpo físico, mecânico, e uma mente, espiritual, que fazem interseção na glândula pineal (que se encontra entre os hemisférios do cérebro). Para ele, empolgado dentro do contexto mecanicista, era possível recriar o corpo e estudá-lo como uma máquina. Porém, o mesmo não era possível com a mente.

Portanto, as questões levantadas pelo filme poderiam ser: se um robô adquirisse a mesma função emotiva e processual de um cérebro humano, seria ele considerado humano? A ausência de um corpo físico, mecânico, o colocaria atrás de nós no quesito “humanidade”? Se o avanço médico e tecnológico nos aproximar da máquina, ainda seríamos humanos? Enfim, levando-se em conta a época e as expectativas evolutivas para a inteligência artificial, essas questões soam interessantíssimas e relevantes.

Do ponto de vista da narrativa cinematográfica, o longa também está em consonância com o discurso proposto. Logo nos créditos, depois de uma rápida contextualização e apresentação da narrativa, é apresentada a fabricação de um ciborgue. A trilha e o desfoque proposital da imagem trazem um tom espiritual à fabricação de um robô – comparando-a com a criação do homem por deus e com a evolução de um feto na barriga de uma mãe. Um caráter ritualístico e religioso para a criação de um corpo: o “milagre” da vida.

A trilha contida, e a pouquíssima utilização de planos mais fechados durante o filme, criam um certo distanciamento, evitando identificações com as personagens. Porém, o filme apresenta sempre uma dualidade: o caráter intimista se mantém através de simbologias criadas pelas imagens e cores da fotografia, em consonância com o distanciamento. Ao mesmo tempo em que se procura distanciar das personagens, a simbologia imagética representa os estados internos – o que traz certa identificação. Da questão cartesiana mente e corpo, se justifica a dualidade da narrativa; e sempre apresentando a dissonância entre as partes.

“Quando criança eu falava como criança,
entendia como criança,
pensava como criança.
Ao me tornar adulto, esqueci-me das coisas de criança.”

 Esse caráter dual perpassa o filme todo também através de metáforas visuais. Quando da volta do mergulho da personagem principal, a Major Motoko Kusanagi, se encontra refletida na superfície da água, e ao tentar entrar em contato com a mesma, dispersa a imagem. Logo após uma conversa no barco, temos vários planos com simbologia dual. Um avião avança em direção ao infinito, logo após, no contraplano, aparece refletido em um prédio e inverso, voltando ao terreno. Vários planos com barcos indo e voltando, os reflexos das pessoas nas ruas e a interseção; o sinal nem verde, nem vermelho, mas amarelo. Enquanto isso, as pessoas nos barcos assistem passivos às vidas, flutuando em rios sujos. Por fim, a chuva abala o espelho que a água havia se tornado, acrescentando dificuldade na visão da dualidade que já é, por si só, complexa. Essas imagens simbólicas somam-se ao discurso sobre mente e corpo; sobre o que define o ser humano como tal. 

Ao final do filme, porém, tenta-se responder às perguntas confirmando Descartes: através do viés biológico de morte e reprodução que, realmente, define-se o corpo. Porém, a mente poderia ser, então, recriada através da tecnologia. Da fusão de corpo mecânico e alma, existe o ser humano. Apesar disso, o filme ainda traz uma interessante conclusão: o ser humano é transformação – a passagem de um eu anterior para um posterior é feito através da mudança. Uma reorganização nos transforma em pessoas diferentes, onde o todo é diferente da soma das partes.


Filmes Citados:
Akira (Idem, 1988/Katsushiro Otomo)
Ghost in the Shell (Kokaku Kidotai, 1995/Mamoru Oshii)

*Publicado originalmente em jul/2007 na revista Filmes Polvo 

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