A linguagem é um conceito que
abrange mais do que somente fala ou escrita, é todo signo que pode ser
percebido pelos sentidos e serve à comunicação. No que tange à linguagem
cinematográfica são os movimentos de câmera, angulações, fotografia, som,
trilha, decupagem, atuações, figurino, arte e a montagem que assumem um papel
formador. Esses são inúmeros fatores que, organizados em uma cadeia de sentido,
dão significados (lógicos ou não) ao fenômeno cinematográfico. Em suma, o olhar
do autor – ou autores - sobre o todo define a sintaxe e a semântica
constituintes dessa linguagem peculiar. A linguagem é viva e metamórfica, ou
seja, permanece em constante revolução, reinventando-se e criando novos
paradigmas e clichês.
Tradutor, traidor.
A velha máxima italiana vale também para a tradução entre linguagens, que pode
ser chamada de adaptação. Uma tradução, por mais fiel que almeje ser, nunca
será idêntica ao original, pois o tradutor nada mais é do que uma pessoa com um
olhar sobre a obra. Estendendo um pouco, todos somos tradutores, e por isso
traidores, ao adaptar os estímulos visuais e auditivos vistos no cinema e
adequá-los à nossa interpretação – advindas de nossa história de vida. O filme
de Spike Jonze e Charlie Kaufman, Adaptação,
se faz interessantíssimo dentro do tema homônimo ao título; além de abordar
outros assuntos interessantes, como metalinguagem, autoralidade e narrativa.
Dentre as
linguagens artísticas comumente adaptadas ao cinema podemos citar peças de
teatro, livros, games, programas de televisão e histórias em quadrinhos. Os
livros, de longe, são os mais adaptados - geralmente os best sellers por razões comerciais óbvias, mas também se encontram
adaptações de livros pouco conhecidos. Por fazerem parte da linguagem escrita
possuem uma característica de se limitar somente à imaginação do autor, sendo
assim há uma grande parte inadaptável ao cinema. Perfume foi considerado assim e, mesmo em sua boa adaptação, muito da obra se perdeu no
caminho. No cenário brasileiro, livros de José Lins do Rego, Euclides da Cunha,
Mário de Andrade, Jorge Amado e outros clássicos foram adaptados ao cinema. Também
se encontra muito de Nelson Rodrigues e até o best seller brasileiro Xangô
de Baker Street de Jô Soares já encontrou lugar na linguagem
cinematográfica.
Shakeaspeare é o
campeão de adaptações dos palcos para a telona, presença constante e
inesgotável em ambos. No Brasil pós-retomada, temos exemplo de duas peças que
vingaram na adaptação - O Auto da
Compadecida e A Máquina, vindas já de um teatro mais maduro, enquanto, por outro
lado, temos duas grandes bobagens tanto no palco quanto no cinema: Acredite, um espírito baixou em mim e Trair e coçar é só começar. Já nas
adaptações de games para o cinema, desconheço algo que seja no mínimo
interessante, exceto pelo mau gosto. Destaque para Uwe Boll - não consigo
definir se é um gênio incompreendido ou alguém com déficit cognitivo acentuado
(tendo a acreditar na segunda opção).
Na televisão o foco
mais comercial e o apelo para segurar a audiência são diferenciais, afinal, no
cinema não há controle remoto, programação 24 horas ou propaganda. Portanto,
adaptar uma obra televisiva também não é fácil. Séries de sucesso geralmente
viram filmes; e há um interessante caminho inverso, muitos filmes se adaptam às
telinhas. Enfim, citei rapidamente esses exemplos porque pretendo enfocar as
adaptações norte-americanas dos quadrinhos, pegando o embalo do lançamento de 300.
História em Quadrinhos
Também conhecida
como a nona arte, as histórias em quadrinhos ou HQ tem raízes que acompanham a
humanidade desde as cavernas e, assim como a pintura, advém das pequenas
representações do dia a dia dos homens primitivos. Os quadrinhos ocidentais
modernos têm como ponto de partida a criação da imprensa, enquanto no oriente,
as raízes do mangá é datada do século VIII. Não tratarei da relação mangá/cinema
neste texto, apesar de ser um assunto interessantíssimo, considerem aqui
somente o lado ocidental. Dentro das tirinhas políticas e cômicas, criadas
desde o final do século XVIII, é interessante frisar o papel dos jornais. William
Hearst, grande magnata do jornalismo, que deu origem ao filme Cidadão Kane, foi importante na criação
dos syndicates, agências que agregam
profissionais da área e passo fundamental para a criação da indústria de
quadrinhos norte-americana. As charges, muito comuns na Internet em Flash, são um
desmembramento dessas tirinhas críticas dos jornais.
A popularização da
indústria dos quadrinhos se deu, a partir de 1930, através da influência do
cinema. Incorporando aspectos da linguagem cinematográfica, as HQ’s começaram a
apresentar características peculiares como a apresentação de um personagem e/ou
ambiente em vários quadros, equilibrando a imagem com a narrativa (vide figura).
Assim como outras advindas - o uso gráfico das onomatopéias e os balões
característicos (de pensamento, cochicho, grito, etc) ganharam um maior uso
narrativo.
Os filmes de
aventura, westerns, e depois o cinema
noir influenciaram no conteúdo dessas
histórias, dando material para a criação dos famosos Dick Tracy, Tex, Spirit, e até o Super-homem. Histórias de terror também fizeram sucesso até a
censura abafar um pouco ao implantar um código de ética nas HQ’s. O querido Mickey Mouse fez o caminho do cinema
para os quadrinhos. Dessas bases, surgiram e popularizaram os super-heróis.
Com a segunda
guerra e a guerra fria, os quadrinhos norte-americanos foram usados como
instrumento de propaganda militar e anti-comunismo. A Marvel, uma das maiores
empresa norte-americana de HQ’s, enviou seu grupo de heróis, os Vingadores, para a guerra e depois
combateram comunistas em resposta aos personagens da concorrente, DC, que criara
a Sociedade da Justiça para combater
inimigos fantasiosos e também reais (como o próprio Hitler). O enfoque mais
infantil e maniqueísta da era clássica dos super-heróis foi perdendo força para
histórias engajadas e personagens mais humanos.
Frank Miller trouxe
Batman: Ano Um em que o cavaleiro das
trevas ganha um tom sombrio, não lembrando em nada aquele Batman clássico que
deu origem ao seriado bobo dos anos 60 com Adam West. Foi resultado da
recriação do universo DC através da saga Crise
nas Infinitas Terras que organizou todo o universo dos super-heróis da
empresa. Essas mega-sagas são comuns nas grandes editoras norte-americanas para
reciclar seus heróis e reorganizar suas histórias. A DC ainda possui Zero Hora e o mais atual, Crise de Identidade. Da Marvel, a saga Massacre foi praticamente a única
tentativa de reorganizar macroscopicamente a coerência na linearidade do
universo próprio.
Na Marvel, muitos
heróis foram criados já com certa aproximação da realidade. O Capitão América é
um resultado de uma experiência para garantir a vitória americana na guerra, os
X-men contêm um discurso pesado
contra a discriminação e o Homem-Aranha
segue o perfil do americano que tenta pagar suas contas. Atualmente, após certa
crise nos quadrinhos de super-heróis, devido ao esgotamento e à invasão
japonesa dos mangás, as adaptações ao cinema deram novo fôlego para a Marvel e
a DC.
Na década de 80, a
DC lançou um selo adulto, Vertigo, pois até então a grande indústria dos
quadrinhos americanos era voltada para adolescentes e crianças. Publicou e/ou ainda publica títulos notáveis
como 100 Balas, Hellblazer, Livros da
Magia, Monstro do Pântano, Preacher, Sandman, V de Vingança e Y – The Last Man. Da Vertigo saíram
grandes gênios como Alan Moore, que acaba de lançar o perturbador Lost Girls, Grant Morrison, autor de Asilo Arkham e Neil Gaiman de Sandman.
HQ’s e Adaptações
Até o final da
década de 90, não havia tecnologia suficiente para adaptar quadrinhos de
super-heróis de maneira digna. Com exceção de Batman e Batman Returns
de Tim Burton (influenciados pela reinvenção do personagem por Frank Miller) e
os dois primeiros do Super-Homem (que
remetem a era anterior à Crise nas
Infinitas Terras), desconheço quaisquer outros filmes adaptados de HQ’s de
heróis que não mereçam o limbo.
Com o lançamento do
primeiro filme dos X-men, a coisa
tomou outro rumo. Apesar do desgosto de alguns e dos mais fanáticos, a grande
massa adorou o espetáculo. Particularmente não achei o resultado satisfatório;
é um filme de ação mediano e uma adaptação medíocre. Reconheço as dificuldades
inerentes à adaptação da linguagem ao cinema comercial, mas esperava-se uma
transferência do conteúdo principal da história para o contexto
cinematográfico. No entanto, verificou-se um delineamento de filme de ação com
figuras características dos quadrinhos. Os personagens sequer foram
desenvolvidos, tamanho foi o desespero para encaixar o maior número de mutantes
no filme. O conflito principal enfrentado pelos mutantes como um time não é
notado, e a ambivalência dos chamados “vilões”, tão rica no original, limita-se
praticamente ao maniqueísmo e justificativas tolas. Foi precedido por dois
filmes, onde se verifica uma constância na minha crítica feita ao primeiro.
Após o sucesso
comercial de X-men, seguiu-se Homem-Aranha (1,2 3), Hulk, Demolidor, Batman Begins,
Superman – O Retorno, Elektra, Motoqueiro Fantasma, Justiceiro, entre
outros. Dentre essas adaptações, à exceção de Sam Raimi e Christopher Nolan, os
diretores foram grandes traditores. Ao
encaixar as adaptações em uma fórmula de filmes de ação vigente (salvo Hulk, que tentou uma aproximação
estética com os quadrinhos), não foi possível traduzir o que, ao meu ver, é o
principal no universo de um super-herói – o conflito interno. Os X-men são um grupo de jovens com super poderes,
mas o que todos os mutantes têm em comum é sofrer com a discriminação social e
o dilema serem atacados justamente por aqueles que juraram proteger. Há certo
esboço disso no terceiro filme da franquia, mas não chega perto da magnitude do
problema apresentado nos quadrinhos.
O Super-Homem e o Homem-Aranha têm em comum o mesmo dilema - ter como maior inimigo
o próprio alterego. Nisso, o filme do cabeça-de-teia
dá um banho no homem de aço já
que Superman – O Retorno é uma piada
de mau gosto – por ser um herói indestrutível, o filme tenta a todo custo enfraquecê-lo
através da Lois Lane, ou de seu
filho. Além disso, retoma o personagem maniqueísta dos primeiros filmes, sendo
que havia uma escolha muito mais interessante vinda dos quadrinhos pós-Crise.
Os filmes de HQ’s deveriam repetir o próprio histórico destas últimas,
abandonar os personagens planos e histórias superficiais, trazendo assim uma
experiência cinematográfica mais profunda e rica.
Nas Graphic Novels, ou quadrinhos adultos, as
adaptações não possuem uma linearidade qualitativa. De Alan Moore se fez coisas
boas como V de Vingança e Do Inferno, passando pelo mediano Constantine e por fim o pífio Liga Extraordinária. Nenhum desses
filmes seguiu fielmente os quadrinhos, mas adaptaram ao cinema a história. Já
Frank Miller, após decepção com o roteiro de Robocop 3, ficou obcecado com a integridade de suas obras e exigiu
fidelidade máxima para produzirem Sin
City e 300.
Aproveitando o
gancho, 300 não tem intenção de apego
à realidade. Diferenças históricas e o caráter que foi chamado de homoerótico
são propositais e coerentes com a trama, que assim como a HQ, tem um enfoque
plástico e fantasioso. Retoma o senso comum sobre os espartanos e lança um
olhar estético à batalha das Termópilas, onde os “machões” de Esparta
enfrentaram Xerxes. A tomada desse senso comum se faz pertinente e necessária
devido a trama se dar por via de um narrador, em tom de lenda. Então, o que se
espera de uma história lendária espartana, passada oralmente até ser escrita
por Heródoto, é o que o conhecimento popular se apropriou, demonizando os futuros
perdedores da batalha (Persas) e exaltando seus heróis (Leônidas). Não é
mérito, porém, de Zack Snyder e sim da própria Graphic Novel de Frank Miller.
O grande problema
da adaptação dos quadrinhos adultos é justamente o caráter revolucionário dos
mesmos. Estão sempre trabalhando com a metalinguagem, narrativa, e a própria
linguagem dos quadrinhos, coisas inadaptáveis ao cinema, a não ser maneira
horizontal, ou seja, trabalhar nessas estruturas em nível cinematográfico. Por
mais que fique feliz com o anúncio de filmes baseados em HQ’s que admiro como: Y
– The Last Man, Stardust e Watchmen, a velha expressão que dá título ao texto
não falha: Traduttore, Traditore
*Publicado originalmente em mai/2007 na revista Filmes Polvo
Filmes
Citados:
Adaptação (Adaptation, 2002/Spike Lee)
Perfume: a história de um assassino (Perfume:
The story of a murderer,
2006/Tom Tykwer)
2006/Tom Tykwer)
O Xangô de Baker Street (Idem, 2001/Miguel
Faria Jr.)
Auto da compadecida (Idem, 2000/Guel
Arraes)
A Máquina (Idem, 2005/João Falcão)
Acredite, um Espírito Baixou em Mim (Idem,
2006/Jorge Moreno)
Trair e Coçar é só Começar (Idem,
2006/Moacyr Góes)
300 (Idem, 2006/Zack Snyder)
Cidadão Kane (Citzen
Kane,1941/Orson Welles)
X-Men (Idem, 2000/Bryan Singer)
X-Men 2 (X2: X-Men United, 2003/Bryan Singer)
X-Men – O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006/Brett Ratner)
Homem-Aranha (Spiderman, 2002/Sam Raimi)
Homem-Aranha 2 (Spiderman 2, 2004/Sam
Raimi)
Homem-Aranha 3 (Spiderman 3, 2007/Sam
Raimi)
Batman – O Filme (Idem, 1989/Tim Burton)
Batman – O Retorno (Batman Returns, 1992/Tim Burton)
Batman Begins (Idem, 2005/Christopher Nolan)
Superman – O Filme (Superman, 1978/Richard Donner)
Superman II – A Aventura Continua (Superman
II, 1980/Richard Lester)
Superman – O Retorno (Superman Returns, 2006/Bryan Singer)
Hulk (Idem, 2003/Ang Lee)
Demolidor – O Homem sem Medo (Daredevil,
2003/Mark Steven Johnson)
Elektra (Idem, 2005/Rob Bowman)
Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 2007/Mark Steven Johnson)
O Justiceiro (The Punisher, 2004/Jonathan Hensleigh)
V de Vingança (V for Vendetta, 2005/James
McTeigue)
Do Inferno (From Hell, 2001/Albert Hughes)
Constantine (Idem, 2005/Francis Lawrence)
A Liga Extraordinária (The League of the Extraordinary Gentleman,
2003/Stephen Norrington)
RoboCop 3 (RoboCop 3, 1993/Fred Dekker)
Sin City – A Cidade do Pecado (Sin City,
2005/Frank Miller e Robert Rodriguez)
Livro
Citado:
O Xangô de Baker Street (Idem, 1995/Jô
Soares)
Peças
Citadas:
O Auto da compadecida (Idem, 1955/Ariano
Suassuna)
A Máquina (Idem, 2000/João Falcão)
Acredite, um Espírito Baixou em Mim (Idem,
1998/Ronaldo Ciambroni)
Trair e Coçar é só Começar (Idem,
1986/Marcos Caruso)
Quadrinhos
Citados:
Os 300 de Esparta (300, 1998/Frank Miller)
Dick Tracy (Idem, 1931/Chester Gould)
Tex (Idem, 1948/Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio
Gallepini)
Spirit (Idem, 1940/Will Eisner)
Super-homem (Superman, 1938/Joe Shuster e Jerry Siegel)
Mickey Mouse (Idem, 1928/Ub Iwerks)
Sociedade da Justiça (Justice Society, 1940/Sheldon Mayer e Gardner Fox)
Vingadores (The Avengers, 1963/Stan Lee e Jack Kirby)
Batman: Ano Um (Batman: Year One, 1987/Frank Miller)
Crise nas Infinitas Terras (Crisis on
Infinitive Earths, 1985/Marv Wolfman)
Zero Hora (Zero Hour: Crisis in Time,
1994/Dan Jurgens)
Crise de Identidade (Identity Crisis,
2004/Rags Morales)
Massacre (Onslaught, 1996/Scott Lobdell e Mark Waid)
X-Men (Idem, 1963/Stan Lee e Jack Kirby)
Homem-Aranha (Spiderman, 1962/Stan Lee e
Steve Ditko)
100 Balas (100 Bullets, 1999/Brian Azarello)
Hellblazer (Idem, 1988/Jamie Delano)
Livros da Magia (The Books Of Magic, 1990/Neil Gaiman)
Monstro do Pântano (Swamp Thing, 1972/Len Wein)
Preacher (Idem, 1995/Garth Ennis)
Sandman (Idem, 1988/Neil Gaiman)
V de Vingança (V for Vendetta, 1982/Alan
Moore)
Y – O Último Homem (Y - The Last Man, 2002/Brian K. Vaughan)
Lost Girls (Idem, 2006/Alan Moore)
Asilo Arkham (Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth, 1989/Grant
Morrison)
Stardust (Idem, 1999/Neil Gaiman)
Watchmen (Idem, 1986/Alan Moore)
Série
Citada:
Batman – O Homem Morcego (Batman, 1966/Leslie
H. Martinson)













