“Todos sempre vão dizer que fui um
louco, um romântico, um anarquista...”
Glauber Rocha
A
retomada trouxe de volta a vida para a produção nacional, mas ainda não estamos
saudáveis: agonizamos no narcisismo e falta de pensamento político do cinema
brasileiro “main stream”. Só de ouvir
a palavra política, alguns torcem o
nariz e se dizem desinteressados, e aí está o grande problema - a ignorância,
que é sabiamente explorada por poucos que se mantêm no topo e apóiam,
obviamente, o conservadorismo. O conceito de política vai muito além de governo
e poder. Entende-se por política qualquer ato social derivado de um interesse
coletivo, sendo que, coletivo se refere não somente à totalidade de indivíduos,
mas também minorias e grupos sociais. Como na brasilidade e também em outras culturas do mundo, voz ativa é
raridade.
A
minoria cinematográfica (engloba cineastas, produtores, técnicos, artistas e a
crítica) constitui um grupo social político, mas que não se reconhece como tal,
e, conseqüentemente, é politicamente desorganizado e falha em qualquer
tentativa de consolidação e estabelecimento de um cinema de movimento
genuinamente brasileiro, que reforça o tão conhecido problema de distribuição.
Enquanto não agirmos em bloco para fazer cinema - e a crítica deve fazer parte
desse processo - não sairemos do estado moribundo em que nos encontramos.
Afinal, basta um estalar de dedos do governo, uma desestruturação por uma
possível crise político-monetária e o cinema brasileiro ficará quase extinto,
como no começo da década de 90. Alguns praticantes estão em um estado
narcisista no qual não enxergam a fragilidade; estão tão preocupados em fazer
seus filmes, apoiados pelo governo, que poucos discutem ou se preocupam com o
cenário político e a consolidação do cinema.
Em
parte, todo o glamour e a vaidade de alguns
cineastas se devem ao imperialismo do cinema americano. A indústria americana
se estabeleceu segundo parâmetros do star
system, em que elevam as personagens presentes na produção de um filme ao status de deuses e deusas – sendo o
assédio da mídia, brigas, fofocas, papparazzi,
grandes produções, lançamentos, produções, e o Oscar conseqüências no processo que dita tendências, moda, beleza,
atitudes e estilo de vida, além de individualizar o cinema. Esse é apenas um
tipo de cultura cinematográfica, mas também a mais apelativa. Qualquer um
sente-se seduzido pela possibilidade de suprimir a carência social/biológica
através do status que lhe é concedido.
Ao
escolhermos um caminho profissional, independentemente da carreira, nos
baseamos no conhecimento prévio e muitas vezes lidamos com os estereótipos e
preconceitos inerentes à escolha. Os estereótipos são os mais variados: um
estudante de psicologia trata de seus próprios problemas durante o curso, os
futuros médicos sempre serão ricos e, assim como os advogados, gozam de alto status social, enquanto os estudantes de
belas artes e artes cênicas, sempre “os alternativos”, serão pobres artesãos.
Enfim, apegar-se a essas idéias pré-estabelecidas demonstra total
desconhecimento e a maioria dos jovens faz sua escolha baseada na
estereotipização da profissão. O jovem cineasta não foge do padrão, adentra o
mundo do cinema com a vaga esperança de sonho hollywoodiano - grandes produções, com grandes orçamentos e atores
famosos - e tendo praticamente só esse tipo de cinema como referência, incompatível
com a terra do carnaval. Obviamente, muitos encontram frustração ao se deparar
com a realidade brasileira. Não adianta tentar importar o star system para o Brasil no esquema de grandes diretores e bons
atores, que são assim definidos pela resposta monetária dos grandes lançamentos,
os blockbusters. A distribuição é precária e desvaloriza a
própria produção nacional.
Zeitgeist é
uma palavra alemã que em português seria traduzida como espírito de época,
características genéricas de um determinado tempo. Esse espírito de época
moldou o que conhecemos como cinema novo e, proporcionou, em outro momento, a
criação da bomba atômica entre todas as outras coisas, pois o homem é produto
da interação de seu organismo com o meio (zeitgeist) e história de vida.
Deve-se partir em busca de um cinema autenticamente brasileiro, analisando o
espírito da época. Na época do cinema novo, não havia VHS, muito menos DVD,
internet, câmera digital e montagem não-linear. Tudo isso deve ser levado em
consideração atualmente, pois haveria maior mobilidade e facilidade na
distribuição.
Pode-se
criar um cineclube na Finlândia, ou até mesmo um festival em Moçambique e,
através da internet, inscrever seu filme e mandá-lo para exibição, sem perda de
qualidade ou desgaste físico que ocorrem em negativos e cópias. É uma
facilidade pouco explorada, principalmente pelo conservadorismo vigente e em
muitos festivais, obviamente, também por pressão da indústria norte-americana
que só tem a ganhar com o esquema clássico de produção e distribuição. A
comunicação digital ainda enfrenta muitas barreiras, dentro mesmo do próprio
país subdesenvolvido e dominado culturalmente em que vivemos. Buscar um espaço
dentro do contexto mundial, através de caminhos alternativos, é o que podemos
fazer para consolidar as bases de um cinema brasileiro – ao ganhar visibilidade
mundial, podemos chamar atenção de nossos próprios cidadãos e nossa classe,
criando uma fidelidade e impedindo que o cinema morra novamente.
Uma
proposta, a qual deveria ser implementada com outras, seria a criação de
cineclubes digitais em universidades fora do amadorismo; o que seria a
princípio um amparo governamental, mas que com devida divulgação ajudaria na
distribuição dos filmes e, a longo prazo, apreço do público, identidade e
incentivo à produção. Medidas como essas ajudaria a tirar cinema de seu estado
totalmente dependente. Nas universidades se concentra a futura intelectualidade
brasileira, mas a maioria dos alunos desconhece a realidade cinematográfica e
tem preconceito contra filmes fora dos circuitos comerciais justamente por não
conhecê-los. Convênios com universidades particulares interessadas, e com
recursos disponíveis, poderiam ser feitos também.
O
principal, todavia, é a ideologia. Não adianta termos como escoar a produção se
não tivermos qualidade de conteúdo. É fato - não podemos competir com a
indústria de entretenimento norte-americana. Não entendo porque insistem em
bobagens como A grande família, Olga ou Se eu fosse você, que saíram com
grandes orçamentos e distribuição, tendo até uma boa bilheteria, mas
politicamente inúteis. Cada um tem o direito de fazer o cinema que lhe apraz,
mas também deve-se pensar na coletividade dos cineastas. Esquecer as vaidades e
lutar não pelo MEU CINEMA, mas pelo CINEMA BRASILEIRO, e com qualidade. Por
isso, a afirmação de uma base ideológica se faz necessária.
A
partir de uma análise social apurada, podemos sim ser um reflexo social reconhecível.
É difícil se ver dentro do quadro cinematográfico brasileiro vigente. Nem ao
menos reconhecemos a queda da classe média ou o aumento da desigualdade. O que
produzimos de imagem para o exterior são filmes pequeno-burgueses para inglês
(ou americano) ver - Cidade de Deus, Antônia
e muitos outros. Não são filmes ruins ou mal produzidos, mas tratam de
temas peculiares da sociedade brasileira (mas não limitados a essa) a partir de
uma ordem formal essencialmente hollywoodiana.
Claro que algumas vezes temos filmes como Central
do Brasil e Abril Despedaçado, que
trazem uma tentativa de construção estética que surge a partir da própria
realidade brasileira para falar de temas essencialmente brasileiros. Em festivais
é mais comum vermos filmes que são mais fortes na identidade, no conteúdo e na
experimentação, mas que acabam ficando praticamente restritos a esses eventos, em
função (de novo) dos problemas de distribuição.
Revolução
não se faz com pragmatismos. A sociedade é contra a utopia, e não se deve viver
somente dela, mas a falta da mesma traz somente a busca pelos prazeres
imediatistas, alienantes e narcisistas. Se realmente desejamos uma mudança no
cinema brasileiro atual, temos que acreditar nessa utopia e começar já.
Tampouco adianta tentar mudar com palavras; apenas quando todos pegarem em
armas será possível uma mudança. Nossa munição deve ser a voz ativa, nossos
soldados, indivíduos políticos e nossa arma, o cinema. Uma guerra pelo
reconhecimento da classe e reivindicações baseadas numa análise crítica da
nossa situação atual. Somente a crença leva à mudança - é questão de estratégia
e objetivos, e por mais distante que pareça, por mais difícil que seja, a
utopia do cinema brasileiro se faz necessária.
*Publicado originalmente em abr/2007 na revista Filmes Polvo
Filmes Citados:
Olga
(2004/Jayme Monjardim)
Se
eu Fosse Você (2006/Daniel Filho)
A
Grande Família – O Filme (2007/Maurício Farias)
Cidade
de Deus (2002/Fernando Meirelles)
Antônia
– O Filme (2006/Tata Amaral)
Central
do Brasil (1998/Walter Salles)
Abril
Despedaçado (2001/Walter Salles)
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