quarta-feira, 21 de março de 2012

A importância da utopia no cinema brasileiro



“Todos sempre vão dizer que fui um louco, um romântico, um anarquista...”
Glauber Rocha

A retomada trouxe de volta a vida para a produção nacional, mas ainda não estamos saudáveis: agonizamos no narcisismo e falta de pensamento político do cinema brasileiro “main stream”. Só de ouvir a palavra política, alguns torcem o nariz e se dizem desinteressados, e aí está o grande problema - a ignorância, que é sabiamente explorada por poucos que se mantêm no topo e apóiam, obviamente, o conservadorismo. O conceito de política vai muito além de governo e poder. Entende-se por política qualquer ato social derivado de um interesse coletivo, sendo que, coletivo se refere não somente à totalidade de indivíduos, mas também minorias e grupos sociais. Como na brasilidade e também em outras culturas do mundo, voz ativa é raridade.

A minoria cinematográfica (engloba cineastas, produtores, técnicos, artistas e a crítica) constitui um grupo social político, mas que não se reconhece como tal, e, conseqüentemente, é politicamente desorganizado e falha em qualquer tentativa de consolidação e estabelecimento de um cinema de movimento genuinamente brasileiro, que reforça o tão conhecido problema de distribuição. Enquanto não agirmos em bloco para fazer cinema - e a crítica deve fazer parte desse processo - não sairemos do estado moribundo em que nos encontramos. Afinal, basta um estalar de dedos do governo, uma desestruturação por uma possível crise político-monetária e o cinema brasileiro ficará quase extinto, como no começo da década de 90. Alguns praticantes estão em um estado narcisista no qual não enxergam a fragilidade; estão tão preocupados em fazer seus filmes, apoiados pelo governo, que poucos discutem ou se preocupam com o cenário político e a consolidação do cinema.

Em parte, todo o glamour e a vaidade de alguns cineastas se devem ao imperialismo do cinema americano. A indústria americana se estabeleceu segundo parâmetros do star system, em que elevam as personagens presentes na produção de um filme ao status de deuses e deusas – sendo o assédio da mídia, brigas, fofocas, papparazzi, grandes produções, lançamentos, produções, e o Oscar conseqüências no processo que dita tendências, moda, beleza, atitudes e estilo de vida, além de individualizar o cinema. Esse é apenas um tipo de cultura cinematográfica, mas também a mais apelativa. Qualquer um sente-se seduzido pela possibilidade de suprimir a carência social/biológica através do status que lhe é concedido.

Ao escolhermos um caminho profissional, independentemente da carreira, nos baseamos no conhecimento prévio e muitas vezes lidamos com os estereótipos e preconceitos inerentes à escolha. Os estereótipos são os mais variados: um estudante de psicologia trata de seus próprios problemas durante o curso, os futuros médicos sempre serão ricos e, assim como os advogados, gozam de alto status social, enquanto os estudantes de belas artes e artes cênicas, sempre “os alternativos”, serão pobres artesãos. Enfim, apegar-se a essas idéias pré-estabelecidas demonstra total desconhecimento e a maioria dos jovens faz sua escolha baseada na estereotipização da profissão. O jovem cineasta não foge do padrão, adentra o mundo do cinema com a vaga esperança de sonho hollywoodiano - grandes produções, com grandes orçamentos e atores famosos - e tendo praticamente só esse tipo de cinema como referência, incompatível com a terra do carnaval. Obviamente, muitos encontram frustração ao se deparar com a realidade brasileira. Não adianta tentar importar o star system para o Brasil no esquema de grandes diretores e bons atores, que são assim definidos pela resposta monetária dos grandes lançamentos, os blockbusters.  A distribuição é precária e desvaloriza a própria produção nacional.

Zeitgeist é uma palavra alemã que em português seria traduzida como espírito de época, características genéricas de um determinado tempo. Esse espírito de época moldou o que conhecemos como cinema novo e, proporcionou, em outro momento, a criação da bomba atômica entre todas as outras coisas, pois o homem é produto da interação de seu organismo com o meio (zeitgeist) e história de vida. Deve-se partir em busca de um cinema autenticamente brasileiro, analisando o espírito da época. Na época do cinema novo, não havia VHS, muito menos DVD, internet, câmera digital e montagem não-linear. Tudo isso deve ser levado em consideração atualmente, pois haveria maior mobilidade e facilidade na distribuição.

Pode-se criar um cineclube na Finlândia, ou até mesmo um festival em Moçambique e, através da internet, inscrever seu filme e mandá-lo para exibição, sem perda de qualidade ou desgaste físico que ocorrem em negativos e cópias. É uma facilidade pouco explorada, principalmente pelo conservadorismo vigente e em muitos festivais, obviamente, também por pressão da indústria norte-americana que só tem a ganhar com o esquema clássico de produção e distribuição. A comunicação digital ainda enfrenta muitas barreiras, dentro mesmo do próprio país subdesenvolvido e dominado culturalmente em que vivemos. Buscar um espaço dentro do contexto mundial, através de caminhos alternativos, é o que podemos fazer para consolidar as bases de um cinema brasileiro – ao ganhar visibilidade mundial, podemos chamar atenção de nossos próprios cidadãos e nossa classe, criando uma fidelidade e impedindo que o cinema morra novamente.

Uma proposta, a qual deveria ser implementada com outras, seria a criação de cineclubes digitais em universidades fora do amadorismo; o que seria a princípio um amparo governamental, mas que com devida divulgação ajudaria na distribuição dos filmes e, a longo prazo, apreço do público, identidade e incentivo à produção. Medidas como essas ajudaria a tirar cinema de seu estado totalmente dependente. Nas universidades se concentra a futura intelectualidade brasileira, mas a maioria dos alunos desconhece a realidade cinematográfica e tem preconceito contra filmes fora dos circuitos comerciais justamente por não conhecê-los. Convênios com universidades particulares interessadas, e com recursos disponíveis, poderiam ser feitos também.

O principal, todavia, é a ideologia. Não adianta termos como escoar a produção se não tivermos qualidade de conteúdo. É fato - não podemos competir com a indústria de entretenimento norte-americana. Não entendo porque insistem em bobagens como A grande família, Olga ou Se eu fosse você, que saíram com grandes orçamentos e distribuição, tendo até uma boa bilheteria, mas politicamente inúteis. Cada um tem o direito de fazer o cinema que lhe apraz, mas também deve-se pensar na coletividade dos cineastas. Esquecer as vaidades e lutar não pelo MEU CINEMA, mas pelo CINEMA BRASILEIRO, e com qualidade. Por isso, a afirmação de uma base ideológica se faz necessária.

A partir de uma análise social apurada, podemos sim ser um reflexo social reconhecível. É difícil se ver dentro do quadro cinematográfico brasileiro vigente. Nem ao menos reconhecemos a queda da classe média ou o aumento da desigualdade. O que produzimos de imagem para o exterior são filmes pequeno-burgueses para inglês (ou americano) ver - Cidade de Deus, Antônia e muitos outros. Não são filmes ruins ou mal produzidos, mas tratam de temas peculiares da sociedade brasileira (mas não limitados a essa) a partir de uma ordem formal essencialmente hollywoodiana. Claro que algumas vezes temos filmes como Central do Brasil e Abril Despedaçado, que trazem uma tentativa de construção estética que surge a partir da própria realidade brasileira para falar de temas essencialmente brasileiros. Em festivais é mais comum vermos filmes que são mais fortes na identidade, no conteúdo e na experimentação, mas que acabam ficando praticamente restritos a esses eventos, em função (de novo) dos problemas de distribuição.

Revolução não se faz com pragmatismos. A sociedade é contra a utopia, e não se deve viver somente dela, mas a falta da mesma traz somente a busca pelos prazeres imediatistas, alienantes e narcisistas. Se realmente desejamos uma mudança no cinema brasileiro atual, temos que acreditar nessa utopia e começar já. Tampouco adianta tentar mudar com palavras; apenas quando todos pegarem em armas será possível uma mudança. Nossa munição deve ser a voz ativa, nossos soldados, indivíduos políticos e nossa arma, o cinema. Uma guerra pelo reconhecimento da classe e reivindicações baseadas numa análise crítica da nossa situação atual. Somente a crença leva à mudança - é questão de estratégia e objetivos, e por mais distante que pareça, por mais difícil que seja, a utopia do cinema brasileiro se faz necessária.

*Publicado originalmente em abr/2007 na revista Filmes Polvo

Filmes Citados:

Olga (2004/Jayme Monjardim)
Se eu Fosse Você (2006/Daniel Filho)
A Grande Família – O Filme (2007/Maurício Farias)
Cidade de Deus (2002/Fernando Meirelles)
Antônia – O Filme (2006/Tata Amaral)
Central do Brasil (1998/Walter Salles)
Abril Despedaçado (2001/Walter Salles)

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