sábado, 24 de março de 2012

Traduttore, Traditore




  A linguagem é um conceito que abrange mais do que somente fala ou escrita, é todo signo que pode ser percebido pelos sentidos e serve à comunicação. No que tange à linguagem cinematográfica são os movimentos de câmera, angulações, fotografia, som, trilha, decupagem, atuações, figurino, arte e a montagem que assumem um papel formador. Esses são inúmeros fatores que, organizados em uma cadeia de sentido, dão significados (lógicos ou não) ao fenômeno cinematográfico. Em suma, o olhar do autor – ou autores - sobre o todo define a sintaxe e a semântica constituintes dessa linguagem peculiar. A linguagem é viva e metamórfica, ou seja, permanece em constante revolução, reinventando-se e criando novos paradigmas e clichês.

Tradutor, traidor. A velha máxima italiana vale também para a tradução entre linguagens, que pode ser chamada de adaptação. Uma tradução, por mais fiel que almeje ser, nunca será idêntica ao original, pois o tradutor nada mais é do que uma pessoa com um olhar sobre a obra. Estendendo um pouco, todos somos tradutores, e por isso traidores, ao adaptar os estímulos visuais e auditivos vistos no cinema e adequá-los à nossa interpretação – advindas de nossa história de vida. O filme de Spike Jonze e Charlie Kaufman, Adaptação, se faz interessantíssimo dentro do tema homônimo ao título; além de abordar outros assuntos interessantes, como metalinguagem, autoralidade e narrativa.

Dentre as linguagens artísticas comumente adaptadas ao cinema podemos citar peças de teatro, livros, games, programas de televisão e histórias em quadrinhos. Os livros, de longe, são os mais adaptados - geralmente os best sellers por razões comerciais óbvias, mas também se encontram adaptações de livros pouco conhecidos. Por fazerem parte da linguagem escrita possuem uma característica de se limitar somente à imaginação do autor, sendo assim há uma grande parte inadaptável ao cinema. Perfume foi considerado assim e, mesmo em sua boa adaptação, muito da obra se perdeu no caminho. No cenário brasileiro, livros de José Lins do Rego, Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Jorge Amado e outros clássicos foram adaptados ao cinema. Também se encontra muito de Nelson Rodrigues e até o best seller brasileiro Xangô de Baker Street de Jô Soares já encontrou lugar na linguagem cinematográfica.

Shakeaspeare é o campeão de adaptações dos palcos para a telona, presença constante e inesgotável em ambos. No Brasil pós-retomada, temos exemplo de duas peças que vingaram na adaptação - O Auto da Compadecida e A Máquina, vindas já de um teatro mais maduro, enquanto, por outro lado, temos duas grandes bobagens tanto no palco quanto no cinema: Acredite, um espírito baixou em mim e Trair e coçar é só começar. Já nas adaptações de games para o cinema, desconheço algo que seja no mínimo interessante, exceto pelo mau gosto. Destaque para Uwe Boll - não consigo definir se é um gênio incompreendido ou alguém com déficit cognitivo acentuado (tendo a acreditar na segunda opção).

Na televisão o foco mais comercial e o apelo para segurar a audiência são diferenciais, afinal, no cinema não há controle remoto, programação 24 horas ou propaganda. Portanto, adaptar uma obra televisiva também não é fácil. Séries de sucesso geralmente viram filmes; e há um interessante caminho inverso, muitos filmes se adaptam às telinhas. Enfim, citei rapidamente esses exemplos porque pretendo enfocar as adaptações norte-americanas dos quadrinhos, pegando o embalo do lançamento de 300.

História em Quadrinhos

Também conhecida como a nona arte, as histórias em quadrinhos ou HQ tem raízes que acompanham a humanidade desde as cavernas e, assim como a pintura, advém das pequenas representações do dia a dia dos homens primitivos. Os quadrinhos ocidentais modernos têm como ponto de partida a criação da imprensa, enquanto no oriente, as raízes do mangá é datada do século VIII. Não tratarei da relação mangá/cinema neste texto, apesar de ser um assunto interessantíssimo, considerem aqui somente o lado ocidental. Dentro das tirinhas políticas e cômicas, criadas desde o final do século XVIII, é interessante frisar o papel dos jornais. William Hearst, grande magnata do jornalismo, que deu origem ao filme Cidadão Kane, foi importante na criação dos syndicates, agências que agregam profissionais da área e passo fundamental para a criação da indústria de quadrinhos norte-americana. As charges, muito comuns na Internet em Flash, são um desmembramento dessas tirinhas críticas dos jornais.

A popularização da indústria dos quadrinhos se deu, a partir de 1930, através da influência do cinema. Incorporando aspectos da linguagem cinematográfica, as HQ’s começaram a apresentar características peculiares como a apresentação de um personagem e/ou ambiente em vários quadros, equilibrando a imagem com a narrativa (vide figura). Assim como outras advindas - o uso gráfico das onomatopéias e os balões característicos (de pensamento, cochicho, grito, etc) ganharam um maior uso narrativo.

Os filmes de aventura, westerns, e depois o cinema noir influenciaram no conteúdo dessas histórias, dando material para a criação dos famosos Dick Tracy, Tex, Spirit, e até o Super-homem. Histórias de terror também fizeram sucesso até a censura abafar um pouco ao implantar um código de ética nas HQ’s. O querido Mickey Mouse fez o caminho do cinema para os quadrinhos. Dessas bases, surgiram e popularizaram os super-heróis.

Com a segunda guerra e a guerra fria, os quadrinhos norte-americanos foram usados como instrumento de propaganda militar e anti-comunismo. A Marvel, uma das maiores empresa norte-americana de HQ’s, enviou seu grupo de heróis, os Vingadores, para a guerra e depois combateram comunistas em resposta aos personagens da concorrente, DC, que criara a Sociedade da Justiça para combater inimigos fantasiosos e também reais (como o próprio Hitler). O enfoque mais infantil e maniqueísta da era clássica dos super-heróis foi perdendo força para histórias engajadas e personagens mais humanos.

Frank Miller trouxe Batman: Ano Um em que o cavaleiro das trevas ganha um tom sombrio, não lembrando em nada aquele Batman clássico que deu origem ao seriado bobo dos anos 60 com Adam West. Foi resultado da recriação do universo DC através da saga Crise nas Infinitas Terras que organizou todo o universo dos super-heróis da empresa. Essas mega-sagas são comuns nas grandes editoras norte-americanas para reciclar seus heróis e reorganizar suas histórias. A DC ainda possui Zero Hora e o mais atual, Crise de Identidade. Da Marvel, a saga Massacre foi praticamente a única tentativa de reorganizar macroscopicamente a coerência na linearidade do universo próprio.

Na Marvel, muitos heróis foram criados já com certa aproximação da realidade. O Capitão América é um resultado de uma experiência para garantir a vitória americana na guerra, os X-men contêm um discurso pesado contra a discriminação e o Homem-Aranha segue o perfil do americano que tenta pagar suas contas. Atualmente, após certa crise nos quadrinhos de super-heróis, devido ao esgotamento e à invasão japonesa dos mangás, as adaptações ao cinema deram novo fôlego para a Marvel e a DC.

Na década de 80, a DC lançou um selo adulto, Vertigo, pois até então a grande indústria dos quadrinhos americanos era voltada para adolescentes e crianças.  Publicou e/ou ainda publica títulos notáveis como 100 Balas, Hellblazer, Livros da Magia, Monstro do Pântano, Preacher, Sandman, V de Vingança e Y – The Last Man. Da Vertigo saíram grandes gênios como Alan Moore, que acaba de lançar o perturbador Lost Girls, Grant Morrison, autor de Asilo Arkham e Neil Gaiman de Sandman.

HQ’s e Adaptações

Até o final da década de 90, não havia tecnologia suficiente para adaptar quadrinhos de super-heróis de maneira digna. Com exceção de Batman e Batman Returns de Tim Burton (influenciados pela reinvenção do personagem por Frank Miller) e os dois primeiros do Super-Homem (que remetem a era anterior à Crise nas Infinitas Terras), desconheço quaisquer outros filmes adaptados de HQ’s de heróis que não mereçam o limbo.

Com o lançamento do primeiro filme dos X-men, a coisa tomou outro rumo. Apesar do desgosto de alguns e dos mais fanáticos, a grande massa adorou o espetáculo. Particularmente não achei o resultado satisfatório; é um filme de ação mediano e uma adaptação medíocre. Reconheço as dificuldades inerentes à adaptação da linguagem ao cinema comercial, mas esperava-se uma transferência do conteúdo principal da história para o contexto cinematográfico. No entanto, verificou-se um delineamento de filme de ação com figuras características dos quadrinhos. Os personagens sequer foram desenvolvidos, tamanho foi o desespero para encaixar o maior número de mutantes no filme. O conflito principal enfrentado pelos mutantes como um time não é notado, e a ambivalência dos chamados “vilões”, tão rica no original, limita-se praticamente ao maniqueísmo e justificativas tolas. Foi precedido por dois filmes, onde se verifica uma constância na minha crítica feita ao primeiro.

 

Após o sucesso comercial de X-men, seguiu-se Homem-Aranha (1,2 3), Hulk, Demolidor, Batman Begins, Superman – O Retorno, Elektra, Motoqueiro Fantasma, Justiceiro, entre outros. Dentre essas adaptações, à exceção de Sam Raimi e Christopher Nolan, os diretores foram grandes traditores. Ao encaixar as adaptações em uma fórmula de filmes de ação vigente (salvo Hulk, que tentou uma aproximação estética com os quadrinhos), não foi possível traduzir o que, ao meu ver, é o principal no universo de um super-herói – o conflito interno. Os X-men são um grupo de jovens com super poderes, mas o que todos os mutantes têm em comum é sofrer com a discriminação social e o dilema serem atacados justamente por aqueles que juraram proteger. Há certo esboço disso no terceiro filme da franquia, mas não chega perto da magnitude do problema apresentado nos quadrinhos.

O Super-Homem e o Homem-Aranha têm em comum o mesmo dilema - ter como maior inimigo o próprio alterego. Nisso, o filme do cabeça-de-teia dá um banho no homem de aço já que Superman – O Retorno é uma piada de mau gosto – por ser um herói indestrutível, o filme tenta a todo custo enfraquecê-lo através da Lois Lane, ou de seu filho. Além disso, retoma o personagem maniqueísta dos primeiros filmes, sendo que havia uma escolha muito mais interessante vinda dos quadrinhos pós-Crise. Os filmes de HQ’s deveriam repetir o próprio histórico destas últimas, abandonar os personagens planos e histórias superficiais, trazendo assim uma experiência cinematográfica mais profunda e rica.
  
Nas Graphic Novels, ou quadrinhos adultos, as adaptações não possuem uma linearidade qualitativa. De Alan Moore se fez coisas boas como V de Vingança e Do Inferno, passando pelo mediano Constantine e por fim o pífio Liga Extraordinária. Nenhum desses filmes seguiu fielmente os quadrinhos, mas adaptaram ao cinema a história. Já Frank Miller, após decepção com o roteiro de Robocop 3, ficou obcecado com a integridade de suas obras e exigiu fidelidade máxima para produzirem Sin City e 300.

Aproveitando o gancho, 300 não tem intenção de apego à realidade. Diferenças históricas e o caráter que foi chamado de homoerótico são propositais e coerentes com a trama, que assim como a HQ, tem um enfoque plástico e fantasioso. Retoma o senso comum sobre os espartanos e lança um olhar estético à batalha das Termópilas, onde os “machões” de Esparta enfrentaram Xerxes. A tomada desse senso comum se faz pertinente e necessária devido a trama se dar por via de um narrador, em tom de lenda. Então, o que se espera de uma história lendária espartana, passada oralmente até ser escrita por Heródoto, é o que o conhecimento popular se apropriou, demonizando os futuros perdedores da batalha (Persas) e exaltando seus heróis (Leônidas). Não é mérito, porém, de Zack Snyder e sim da própria Graphic Novel de Frank Miller.

O grande problema da adaptação dos quadrinhos adultos é justamente o caráter revolucionário dos mesmos. Estão sempre trabalhando com a metalinguagem, narrativa, e a própria linguagem dos quadrinhos, coisas inadaptáveis ao cinema, a não ser maneira horizontal, ou seja, trabalhar nessas estruturas em nível cinematográfico. Por mais que fique feliz com o anúncio de filmes baseados em HQ’s que admiro como: Y – The Last Man, Stardust e Watchmen, a velha expressão que dá título ao texto não falha: Traduttore, Traditore

 

*Publicado originalmente em mai/2007 na revista Filmes Polvo 

Filmes Citados:
Adaptação (Adaptation, 2002/Spike Lee)
Perfume: a história de um assassino (Perfume: The story of a murderer,
2006/Tom Tykwer)
O Xangô de Baker Street (Idem, 2001/Miguel Faria Jr.)
Auto da compadecida (Idem, 2000/Guel Arraes)
A Máquina (Idem, 2005/João Falcão)
Acredite, um Espírito Baixou em Mim (Idem, 2006/Jorge Moreno)
Trair e Coçar é só Começar (Idem, 2006/Moacyr Góes)
300 (Idem, 2006/Zack Snyder)
Cidadão Kane (Citzen Kane,1941/Orson Welles)
X-Men (Idem, 2000/Bryan Singer)
X-Men 2 (X2: X-Men United, 2003/Bryan Singer)
X-Men – O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006/Brett Ratner)
Homem-Aranha (Spiderman, 2002/Sam Raimi)
Homem-Aranha 2 (Spiderman 2, 2004/Sam Raimi)
Homem-Aranha 3 (Spiderman 3, 2007/Sam Raimi)
Batman – O Filme (Idem, 1989/Tim Burton)
Batman – O Retorno (Batman Returns, 1992/Tim Burton)
Batman Begins (Idem, 2005/Christopher Nolan)
Superman – O Filme (Superman, 1978/Richard Donner)
Superman II – A Aventura Continua (Superman II, 1980/Richard Lester)
Superman – O Retorno (Superman Returns, 2006/Bryan Singer)
Hulk (Idem, 2003/Ang Lee)
Demolidor – O Homem sem Medo (Daredevil, 2003/Mark Steven Johnson)
Elektra (Idem, 2005/Rob Bowman)
Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 2007/Mark Steven Johnson)
O Justiceiro (The Punisher, 2004/Jonathan Hensleigh)
V de Vingança (V for Vendetta, 2005/James McTeigue)
Do Inferno (From Hell, 2001/Albert Hughes)
Constantine (Idem, 2005/Francis Lawrence)
A Liga Extraordinária (The League of the Extraordinary Gentleman, 2003/Stephen Norrington)
RoboCop 3 (RoboCop 3, 1993/Fred Dekker)
Sin City – A Cidade do Pecado (Sin City, 2005/Frank Miller e Robert Rodriguez)

Livro Citado:
O Xangô de Baker Street (Idem, 1995/Jô Soares)

Peças Citadas:
O Auto da compadecida (Idem, 1955/Ariano Suassuna)
A Máquina (Idem, 2000/João Falcão)
Acredite, um Espírito Baixou em Mim (Idem, 1998/Ronaldo Ciambroni)
Trair e Coçar é só Começar (Idem, 1986/Marcos Caruso)

Quadrinhos Citados:
Os 300 de Esparta (300, 1998/Frank Miller)
Dick Tracy (Idem, 1931/Chester Gould)
Tex (Idem, 1948/Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini)
Spirit (Idem, 1940/Will Eisner)
Super-homem (Superman, 1938/Joe Shuster e Jerry Siegel)
Mickey Mouse (Idem, 1928/Ub Iwerks)
Sociedade da Justiça (Justice Society, 1940/Sheldon Mayer e Gardner Fox)
Vingadores (The Avengers, 1963/Stan Lee e Jack Kirby)
Batman: Ano Um (Batman: Year One, 1987/Frank Miller)
Crise nas Infinitas Terras (Crisis on Infinitive Earths, 1985/Marv Wolfman)
Zero Hora (Zero Hour: Crisis in Time, 1994/Dan Jurgens)
Crise de Identidade (Identity Crisis, 2004/Rags Morales)
Massacre (Onslaught, 1996/Scott Lobdell e Mark Waid)
X-Men (Idem, 1963/Stan Lee e Jack Kirby)
Homem-Aranha (Spiderman, 1962/Stan Lee e Steve Ditko)
100 Balas (100 Bullets, 1999/Brian Azarello)
Hellblazer (Idem, 1988/Jamie Delano)
Livros da Magia (The Books Of Magic, 1990/Neil Gaiman)
Monstro do Pântano (Swamp Thing, 1972/Len Wein)
Preacher (Idem, 1995/Garth Ennis)
Sandman (Idem, 1988/Neil Gaiman)
V de Vingança (V for Vendetta, 1982/Alan Moore)
Y – O Último Homem (Y - The Last Man, 2002/Brian K. Vaughan)
Lost Girls (Idem, 2006/Alan Moore)
Asilo Arkham (Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth, 1989/Grant Morrison)
Stardust (Idem, 1999/Neil Gaiman)
Watchmen (Idem, 1986/Alan Moore)

Série Citada:
Batman – O Homem Morcego (Batman, 1966/Leslie H. Martinson)

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