terça-feira, 10 de abril de 2012

Morte - parte 1




Definir morte é extremamente simples e ineficaz: é o fim do ciclo da vida. A interpretação que fazemos desse fenômeno biológico inerente à vida é a grande questão. A irreversibilidade do fato nos faz lidar com algo que extrapola o controle que tentamos ter das nossas vidas. A religião foi criada justamente para dar sentido ao que nos escapa; e, não é estranho que todas, sem exceção, tenham uma explicação para a morte.

Durante a idade média foi criada a representação da morte através da Danse Macabre – Dança Macabra. A morte personificada conduzia os vivos para o fim em uma dança que unia a quem quer que seja: rei, papa, monge, homem, mulher ou criança. Ou seja, demonstra o caráter universal que esse fenômeno adota. Essa Danse Macabre foi representada, por exemplo, por Bergman no final de O sétimo selo.


Vários deuses antigos já personificaram a morte ou o seu significado. Na cultura pop, a morte é freqüentemente representada na figura encapuzada de um ceifador. Das menos comuns e interessantes, aponto o próprio Penadinho da Turma da Mônica e a Morte de Sandman (vide figura), que estranhamente tem como irmãos Destino, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio.

Obviamente, um assunto tão próprio e tão dúbio encontra expressividade nas artes. Focando no cinema, encontro três grandes diferenciações para a visão do fenômeno morte: A morte como o fim da vida, como a própria vida e como acontecimento. Claro que tais diferenciações por vezes se misturam e não pretendo impor limitações ao olhar sobre o assunto em questão.


Morte Como o Fim da Vida

A visão clássica da morte como fim da vida é compactuada principalmente em Hollywood de uma maneira geralmente baseada em determinados valores morais. Os bandidos morrem no final e sentimos que essa morte foi o castigo justo para todo sofrimento causado ao herói. Quando o herói encontra o seu fim, entretanto, é geralmente de maneira redentora, algo necessário para o fim da repetição compulsória das tragédias.

Outros encontram a morte pelo caminho além dos protagonistas mas, de certa maneira, podemos ou não sentir tais mortes. A visão do diretor sobre as personagens define claramente quem vamos nos importar ou vamos ignorar, morrendo ou não. Em Violência Gratuita de Michael Haneke, torcemos fortemente para que os ‘mocinhos’ morram finalmente, fato perturbador para muitos. Não acredito que haja uma banalização generalizada da morte no cinema, como muitos conservadores gostam de apontar; o fenômeno da morte realmente não importa muito, tanto no cinema quanto na realidade, mas sim quem morre e a construção que temos da identidade dessa pessoa.

Claro que analisar a morte como o fim da vida não é ser simplista, e em 21 gramas Iñárritu constrói uma interessante e densa proposta tendo essa visão. No aspecto técnico, a montagem atemporal é dividida em três núcleos aparentemente sem ligação, mas encontra no conteúdo a justificativa de ser: a irreversibilidade e conseqüências da morte em vários planos.

Em comum, os protagonistas de cada núcleo têm a mesma visão da morte como o fim. Cristina (Naomi Watts) se vê sem rumo após a morte do marido e das filhas. Perde o encanto e os pequenos prazeres, aguardando o próprio fim enquanto vive. Jack Jordan (Benicio Del Toro), após ter encontrado abrigo espiritual na religião, coloca-se em dúvida quanto à mesma; culpando-se por ter acidentalmente atropelado um homem e duas meninas. Paul (Sean Penn) não se sente digno de viver tendo o coração de outro. A culpa o corrói por sentir-se um parasita, de certa maneira. E assim, procura a morte do motorista para ver se consegue dar sentido à própria culpa que causa seu sofrimento.

O desfecho de 21 Gramas não traz uma resposta simplista para o tema; é a irreversibilidade ocasionada pelo fim. Assistimos passivos ao filme, como assistimos passivos à morte. A história adota uma saída realista pelo próprio conteúdo da mesma; se não há nem mesmo um culpado, nada se pode fazer para resolver a questão. Não há redenção, não há castigo, não há mudanças de vida; apenas a morte, o luto e suas conseqüências para os que ainda vivem na espera de se livrar do peso de uma alma: 21 gramas.


*Publicado originalmente em jun/2007 na revista Filmes Polvo 

Filmes citados:
O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, 1957/Ingmar Bergman)
Violência Gratuita (Funny Games, 1997/Michael Haneke)
21 Gramas (21 Grams, 2003/Alejandro González Iñárritu)


Quadrinhos citados:
Sandman (Idem, 1998/Neil Gaiman)
A turma da Mônica (Idem, 1960/Maurício de Souza)



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