Definir morte é extremamente simples e ineficaz:
é o fim do ciclo da vida. A interpretação que fazemos desse fenômeno biológico
inerente à vida é a grande questão. A irreversibilidade do fato nos faz lidar
com algo que extrapola o controle que tentamos ter das nossas vidas. A religião
foi criada justamente para dar sentido ao que nos escapa; e, não é estranho que
todas, sem exceção, tenham uma explicação para a morte.
Durante a idade média
foi criada a representação da morte através da Danse Macabre – Dança Macabra. A morte personificada conduzia os
vivos para o fim em uma dança que unia a quem quer que seja: rei, papa, monge,
homem, mulher ou criança. Ou seja, demonstra o caráter universal que esse
fenômeno adota. Essa Danse Macabre
foi representada, por exemplo, por Bergman
no final de O sétimo selo.
Obviamente, um assunto
tão próprio e tão dúbio encontra expressividade nas artes. Focando no cinema,
encontro três grandes diferenciações para a visão do fenômeno morte: A morte
como o fim da vida, como a própria vida e como acontecimento. Claro que tais
diferenciações por vezes se misturam e não pretendo impor limitações ao olhar sobre
o assunto em questão.
Morte Como o Fim da Vida
A visão clássica da
morte como fim da vida é compactuada principalmente em Hollywood de uma maneira
geralmente baseada em determinados valores morais. Os bandidos morrem no final
e sentimos que essa morte foi o castigo justo
para todo sofrimento causado ao herói. Quando o herói encontra o seu fim,
entretanto, é geralmente de maneira redentora, algo necessário para o fim da
repetição compulsória das tragédias.
Outros encontram a
morte pelo caminho além dos protagonistas mas, de
certa maneira, podemos ou não sentir tais mortes. A visão do diretor sobre as
personagens define claramente quem vamos nos importar ou vamos ignorar,
morrendo ou não. Em Violência Gratuita de
Michael Haneke, torcemos fortemente para que os ‘mocinhos’ morram finalmente,
fato perturbador para muitos. Não acredito que haja uma banalização
generalizada da morte no cinema, como muitos conservadores gostam de apontar; o
fenômeno da morte realmente não importa muito, tanto no cinema quanto na
realidade, mas sim quem morre e a
construção que temos da identidade dessa pessoa.
Claro que analisar a
morte como o fim da vida não é ser simplista, e em 21 gramas Iñárritu constrói uma interessante e densa proposta tendo
essa visão. No aspecto técnico, a montagem atemporal é dividida em três núcleos
aparentemente sem ligação, mas encontra no conteúdo a justificativa de ser: a
irreversibilidade e conseqüências da morte em vários planos.
Em comum, os
protagonistas de cada núcleo têm a mesma visão da morte como o fim. Cristina
(Naomi Watts) se vê sem rumo após a morte do marido e das filhas. Perde o
encanto e os pequenos prazeres, aguardando o próprio fim enquanto vive. Jack
Jordan (Benicio Del Toro), após ter encontrado abrigo espiritual na religião, coloca-se em dúvida quanto à mesma; culpando-se por ter
acidentalmente atropelado um homem e duas meninas. Paul (Sean Penn) não se
sente digno de viver tendo o coração de outro. A culpa o corrói por sentir-se
um parasita, de certa maneira. E assim, procura a morte do motorista para ver
se consegue dar sentido à própria culpa que
causa seu sofrimento.
O desfecho de 21 Gramas não traz uma resposta
simplista para o tema; é a irreversibilidade ocasionada pelo fim. Assistimos
passivos ao filme, como assistimos passivos à morte. A história adota uma saída
realista pelo próprio conteúdo da mesma; se não há nem mesmo um culpado, nada se
pode fazer para resolver a questão. Não há redenção, não há castigo, não há mudanças
de vida; apenas a morte, o luto e suas conseqüências para os que ainda vivem na
espera de se livrar do peso de uma alma: 21 gramas.
*Publicado originalmente em jun/2007 na revista Filmes Polvo
Filmes citados:
O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, 1957/Ingmar Bergman)
Violência
Gratuita (Funny Games, 1997/Michael Haneke)21 Gramas (21 Grams, 2003/Alejandro González Iñárritu)
Quadrinhos citados:
Sandman (Idem, 1998/Neil Gaiman)
A turma da Mônica (Idem, 1960/Maurício de Souza)



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