quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sobre Teatro, Cinema e Atores - parte 2


Do cinema

 O cinema foi, de certa maneira, subvalorizado quando da sua criação. Os irmãos Lumière desconheciam as potencialidades do que acabaram de criar. Já se vê em A chegada do trem à estação ou A saída dos operários da fábrica uma matéria bruta passível de lapidação. Não era somente a imagem em movimento captada pelo cinematógrafo, mas uma matéria-prima essencial para uma nova arte. E logo, surgiram os que começaram essa lapidação – Méliès, Porter, Griffith, Vertov etc.

No começo, o cinema ainda se assemelhava a um teatro filmado. Não havia decupagem, o enquadramento era fixo, etc. A narrativa ainda se desenvolvia muito parecida à dos palcos, com certas dificuldades para transições temporais e espaciais. Aos poucos, principalmente com os estudos relacionados à montagem, fotografia e movimentos de câmera essa realidade foi se modificando. Os atores usavam maquiagens fortes e exageravam nas expressões e movimentações devido a vários fatores. Suponho ser a qualidade baixa da captura e/ou projeção, pois assim era mais visível a atuação; a falta de técnica nos planos detalhes, que aproximariam o olhar do espectador para determinada ação; a tradição teatral, ainda em alta; ou ainda, a falta da variável “som” - sendo a expressividade dos atores necessária em contingência às cartelas para assim formar sentido. O ápice dessa expressividade se deu no Expressionismo Alemão; onde, aliada ao conteúdo, a narrativa demandava um exagero proposital por parte dos atores em consonância com as sombras exageradas dos cenários e roteiro.


Com O cantor de Jazz, de 1927, introduziu-se o cinema falado. Muitos atores do cinema mudo não se adaptaram, pois – entre outros motivos – não possuíam adequação vocal para tal. Muitos cineastas, de Chaplin a Eisenstein, criticaram essa novidade. Apesar de tudo, o som encontrou seu espaço no cinema e aproximou mais o realismo de Stanislavski do cinema narrativo clássico. Já não era preciso pontuar com expressões faciais e corporais os sentidos da imagem. O ator possuía então uma nova e importante ferramenta a sua disposição: a voz.

O cinema encontrou uma divergência de foco principal. O olhar direcionado se tornou a principal ferramenta dentre as variáveis narrativas. Assim, o resultado da construção da personagem no realismo ficou mais aproximado das pessoas reais encontradas em qualquer esquina. Em conjunto com a câmera, que é um olhar direcionado, o diretor é capaz de captar o mínimo movimento de um ator, as mínimas expressões que, projetados em telas grandes mais tarde, traz significado pra frase tão comumente dita e ouvida:

“Atuação no cinema é construída a partir de mínimos”.


Teatro X Cinema

Ironicamente, o ator é muito mais valorizado socialmente no cinema do que no teatro, onde o mesmo reina sem a enorme devoção social dedicada às estrelas. O Star System americano criou um culto à figura dos atores que os elevou a um status mais elevado perante a sociedade. Também é necessário frisar que o cinema possui maior penetração e aceitação na população do que teatro - o que colabora para a posição do status.

A transposição entre linguagens – teatral e cinematográfica – para atores, não é clara para os iniciantes na categoria. Muito se vê em publicidade de “cursos de teatro” a preparação para teatro/cinema/tv; sendo que apresentam apenas uma técnica, ou pseudo-técnica, que limitam a visão e a crítica do iniciante. Geralmente, é usada algo baseado no naturalismo, empobrecido com estereótipos e reforçados por certa visão errônea dos professores. Aproveitando, os estereótipos são necessários e interessantes a depender da proposta, mas os vícios e a dependência cega nos mesmos são o grande problema.

O ator se constrói da vivência, interna e externa aos palcos/sets. Não há uma só maneira de atuar; a linguagem e a mídia demandam certos perfis. No cinema, como detalhes são extremamente importantes, o perfil físico se faz mais importante do que a própria expressividade. Não há dúvidas que John Wayne foi um grande ator, porém, de cinema. No teatro talvez seria um desastre risível. Assim como há grandes atores de teatro que não são adequados ao cinema. Também há os que transitam muito bem entre as mídias. Cinema e teatro são artes diferentes, com profissionais diferentes, diferentes visões e que trazem percepções únicas e distintas.

No teatro, há uma maior incontrolabilidade e conseqüente improvisação e adaptabilidade. Esses fatores propiciam certa falta de “continuidade” entre uma apresentação e outra, tornando o espetáculo mais atraente. No cinema, como é possível repetir planos e as variáveis controladas são tantas, corre-se o risco de subvalorizar o ator e seu trabalho, utilizando-se dos atores como meras marionetes de roteiro – sendo na aliança de vários profissionais e visões de mundo que se dá o cinema. É importante saber aliar a flexibilidade com a controlabilidade quando necessário, afinal o controle da variável depende da visão do gestor do processo e da narrativa criada. Ou ainda, como Marçal Aquino sintetizou em uma palestra “Cinema é igual suruba”.

Enfim, o levantamento histórico e funcional da variável “ator” dentro do contexto cinematográfico se faz tão necessário como o das outras variáveis. É preciso fugir do lugar-comum de apenas avaliar se o ator foi bom, médio ou medíocre, avaliação praticada pelo marketing de análise. Atuar é uma arte e deve ser tratada como tal, levando - quando possível - a questionamentos e construção de conhecimento.



*Publicado originalmente em jul/2007 na revista Filmes Polvo 

Filmes Citados:
A chegada do trem à estação (L’Arrivée d’un train à la Ciotat, 1895/Auguste e Louis Lumière)
A saída dos operários da fábrica (La sortie des usines Lumière, 1895/Auguste e Louis Lumière)
O Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1927/Alan Crosland)

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