“Eles
precisam de nós, e nos querem.”
Essa frase dita logo no início do filme já
demonstra a que veio o filme de 1968, dirigido por John Wayne e Ray Kellogg: justificar a guerra do Vietnã que acontecia naquele contexto.
Politicamente, é interessante a tentativa de construção de uma imagem gloriosa
e libertadora que direcionasse a opinião pública para a manutenção de tal
guerra. Os norte-americanos são personagens planos, bonzinhos e acima de tudo
éticos. Os vietnamitas que trabalham no lado ianque, assumem essas
características, enquanto o menino órfão significa a liberdade e o povo
oprimido pelos vietcongues.
Marion Morrison foi descoberto por Ford
enquanto trabalhava como quarto assistente em Mother Machree. Mais tarde, Morrison ganhou o nome de John Wayne, e
começou a trabalhar no próprio pseudônimo como personagem. Acabou criando uma
lenda dos westerns, com jeitos e
trejeitos característicos; infelizmente a mesma lenda não se aplica a suas
tentativas na direção, que são pouquíssimas e, em
Os boinas verdes, desastrosa.
D.W.
Griffith, considerado pai do cinema narrativo clássico com O Nascimento de uma Nação utilizou-se de uma narrativa e técnica
apuradas para construir um filme de conteúdo polêmico. Toda a estrutura é
copiada a exaustão por diversos filmes e diretores, mesmo quase 100 anos após o
longa ter sido feito. A Leni Riefenstahl, cineasta do nazismo, foi dada a
tarefa de produzir um filme que significasse o que O encouraçado potemkin foi para o comunismo e, conseqüentemente,
para a Rússia. E teve êxito em Triunfo da
Vontade em que vemos Hitler endeusado, chegando dos céus como o novo
messias que salvará a Alemanha e mostrando sempre o seu rosto com certa
distância e em ângulos que favorecem certa superioridade. Ambos os cineastas,
Leni e Griffith, produziram obras-primas de conteúdo moralmente repreensível –
partindo-se do contexto contemporâneo - mas de técnica e narrativa inovadoras.
A interseção entre Os boinas verdes e Griffith e Leni termina no conteúdo. O filme de
Wayne peca em quase todos os aspectos. A começar, pelas atuações. John Wayne
foi um grande ator, apesar da maioria dos seus personas não necessitarem de
carga dramática acentuada; Wayne conseguia cumprir os objetivos e ser
carismático no personagem que ele mesmo era. Entretanto, foi um péssimo diretor
de atores, talvez pela falta de certa carga dramática - as atuações - em geral,
de Os boinas verdes são risíveis. O elenco de apoio - com suporte de uma
direção fraca e uma montagem mambembe – é enorme e indiferenciado. Há tantos
personagens apresentados que não se consegue criar uma identificação, exceto
pelo melhor ator do filme, o jovem menino vietnamita e o próprio diretor –
talvez não por esse filme em si, mas por ser John Wayne novamente. A população
local dá suporte ao exército sem questionar; os vemos sempre ao fundo,
trabalhando, fora isso são os mais esquecidos pelo filme.
O contexto político-social é plenamente ignorado
já na direção dos atores. Apenas são
relevantes os salvadores, os próprios americanos; enquanto isso, o vietnamita é
deixado de lado – sem anseios, sem desejos, sem vida, sem rosto. Representados
por um menino órfão no acampamento, ao mesmo tempo em que perdemos tempo com
muitos personagens ianques secundários irrelevantes.
A visão americanizada permeia tanto o filme
que até os vietcongues são ignorados. Não se vê os rostos ou qualquer outro
traço que os caracterizem como humanos. Coloco minha mão no fogo se tal
ausência de humanidade foi proposital como em Potenkim de Eisenstein, mas sinceramente, funciona muito bem para simbolizar
o vilão comunista.
Há alguns diálogos desnecessários e/ou
politicamente equivocados: “...não precisa cair um peso em mim ou um tiro
dessas armas, para ver que se trata da dominação comunista do mundo.” ou “Veja
todas aquelas árvores. Meu cachorro ia adorar!”. Para não dizer do certeiro
tiro no pé quando critica o que não é publicado pela imprensa, afinal, o filme
compactua com o que foi noticiado na época, ignorando toda tortura a civis e
complexidade social e psicológica que se tem em uma guerra. Assim como no
Vietnã, quando foi noticiada a guerra do Afeganistão, o conteúdo foi totalmente
enviesado, manipulando as informações que chegam ao público, que continua a
ignorar certos horrores que a palavra guerra traz consigo.
A montagem do filme é absurdamente
ineficaz. A cena da tomada do acampamento pelos vietcongues, por exemplo, é
confusa e não sabemos o que acontece. Perdemos a dimensão do espaço e a
localização de cada personagem. Ao filme somam-se, também, movimentos de câmera
desconjuntados e deselegantes, ainda com alguns zooms embaraçosos e mal feitos
- claro, tendo como base a narrativa clássica a qual o filme se propõe.
A visão estereotipada dos vietcongues, sempre
como um inimigo a espreita (apesar da direção não sustentar isso) e cruéis é
totalmente rechaçada no primeiro embate com os americanos. São como formigas bobas
que passeiam pelo ambiente enquanto o som traz explosões, barulhos de tiros e
gritos. Como já foi dito, nessa batalha, não se distingue muita coisa. Tony
Scott, seus cortes e sua câmera com Parkinson nos informa mais do que a
montagem de Os boinas verdes.
Enfim, o longa traz inúmeros defeitos tanto
técnicos quanto de conteúdo. Se quiser assistir ao bom John Wayne, recomendo
qualquer outro filme, de preferência westerns.
Os boinas verdes fica como curiosidade da filmografia de Wayne, devendo ser
colocado como um dos últimos a ser vistos, tendo em vista o grande e
centenário Marion Morrison.
*Publicado originalmente em jul/2007 na revista Filmes Polvo
Filmes
Citados:
Os Boinas Verdes (The Green Berets,1968/John Wayne e Ray Kellog)
Minha Mãe (Mother Machree, 1928/John Ford)
O Encouraçado Potemkin (Bronenosets
Potyomkin, 1925/Sergei Eisenstein)
Triunfo da Vontade (Triumph des Willens,
1935/Leni Riefenstahl)
O Nascimento de uma Nação (The Birth of a
Nation, 1915/ D.W. Griffith)

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