Morte Como Acontecimento
Acho que me referia a Di-Glauber (também conhecido pelo imenso título de Ninguém Assistirá Ao Enterro Da Tua Última Quimera, Somente A Ingratidão, Aquela Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável) mesmo antes de elaborar o conceito. Morte como acontecimento é aquele luto desmistificado, que mesmo em face da dor, prevalece a lembrança da figura em vida. O filme estarrece a princípio, tanto pela montagem quanto pela narrativa e tema.
Em Di, Glauber desmistifica a morte como um fenômeno carregado negativamente, brincando com a mesma. Ao início do curta, uma música carregada traz toda a mistificação da morte, todo o sentido macabro para um corpo sem vida. Ao mesmo tempo, Glauber narra seus movimentos e o espanto causado pela filmagem de um enterro. Aos poucos, a câmera encara o morto, que estranhamente parece estar sorrindo. Passado o momento que deveria ser de choque (e ironicamente não o é), a trilha antes aparentemente sacra é substituída por sambas, e a narrativa em off que, em certo momento, ganha um tom de narração de futebol. Assim, Glauber está zombando do conceito clássico de morte e traz, enfim, características marcantes de uma identidade cultural brasileira partilhada por ele mesmo e Di Cavalcanti, os quais foram influenciados e influenciaram a mesma.
Ao voltarmos para as cenas do enterro, por vezes, retorna a música pesada estereotipadamente ligada à morte. Isso demonstra que os familiares, de acordo com Glauber, compactuam com a visão da morte como um fim e não estão fazendo jus à alegria que o morto trazia. Glauber relembra a vida e obra de seu amigo, através de recortes de jornal, quadros, de críticas, de reflexões, prestando sua homenagem à Di.
Para Glauber, aquele funeral triste é apenas uma face da morte e faz do mesmo um acontecimento, um happening, desmistificando toda a cultura do luto. Entretanto, vê-se claramente a homenagem, saudade e respeito que Glauber tem por Di – tão digno e valoroso quanto qualquer lágrima derramada no enterro. A proibição, a pedido da filha de Di, é absurda e reflete a falta de cultura e respeito pelo próprio pai que, diga-se de passagem, ia se divertir muito com o filme se não estivesse morto.
*Publicado originalmente em jun/2007 na revista Filmes Polvo
Filmes citados:
Ninguém Assistiu ao Formidável Enterro de Sua Última
Quimera; Somente a Ingratidão, Essa Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável
(Idem, 1977/Glauber Rocha)

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