domingo, 22 de abril de 2012

Sobre Teatro, Cinema e Atores - parte 1


“(...) constitui-se de uma soma de elementos visuais e auditivos, que transmitem informações espaciais, temporais, circunstanciais, etc., que se acham estritamente relacionadas com (...) aquilo que está sendo representado.  O cenário nos informa a respeito do local onde transcorre a ação, a época em que se passa, o poder aquisitivo dos personagens; o figurino diz se está frio ou calor, se está chovendo, se os personagens são ricos ou não, se vivem na época atual, na década de 20, no século passado, etc. A soma dessas a outras informações nos auxilia a entender melhor o que se passa e a formar uma idéia completa a respeito (...)” (CAMARGO, Roberto Gil. A sonoplastia no teatro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Artes Cênicas, 1986, pg. 31)

Esse trecho, que também pode ser aplicado ao cinema, foi originalmente escrito sobre o teatro. Nas duas artes, uma combinação entre variáveis arranjadas tem a finalidade de estabelecer um propósito definido e passar o conteúdo desejado. Seja na combinação lógica e realista desses fatores, de forma orgânica e formal, seja na desconstrução de paradigmas pré-estabelecidos, criando-se novos conceitos e/ou conteúdos. O conjunto desses fatores estéticos e sua relação com o conteúdo formam a narrativa. Dentro do teatro a narrativa tem como papel central o ator - é dele que o conteúdo se manifesta no público através de sensações.

Do teatro

 Ora, por delimitações ambientais físicas, o teatro se baseia em uma estética do exagero, onde todas as pessoas ali presentes devem receber as estimulações provindas do ator, não importando a distância ou posição. Esse exagero não deve ser visto de forma descabida, a exceção se for proposital; o ator deve sim se fazer dono da atenção quando necessário a fim de se comunicar.

Em rápido resumo, a origem do teatro ocidental remonta os cultos ao deus Dionísio; dando lugar, depois, a um caráter educativo de representação de tragédias e comédias. Na idade média, com o apogeu cristão, o teatro encontrava lugar nas igrejas e mosteiros, limitado, praticamente,  a servir à religião. Era primordialmente um veículo de propagação de conteúdos bíblicos; entrando em declínio em meados do século XVI. Com o renascimento, as trupes de teatro - desde o século XV – se agruparam ao redor da nobreza, de onde se tira o termo “teatro elisabetano”. Desde então, ocorreu um reflorescimento europeu do teatro – passando pela Inglaterra, França, Itália, Espanha, etc - do qual, aliado às inovações da posterior revolução industrial, se deu o teatro contemporâneo. Cabe lembrar que, no Brasil, o teatro foi introduzido pelos jesuítas como uma forma de catequização dos índios.

Destacam-se, como pensadores, Constantin Stanislavski e Bertold Brecht. A Stanislavski se atribui, erroneamente, ao que chamam de Método Stanislavski, famoso por ser utilizado no Actors Studio de NY. O conjunto de técnicas e um arcabouço teórico/prático desenvolvidos pelo autor advém de suas teorias que se propõe dialeticamente, e não de maneira mitificada, dogmatizada e equívoca como é tratada. As teorias stanislaviskianas são propostas como um sistema criador, totalmente flexível, sujeitas às transformações necessárias a cada um. É apenas uma teoria que se coloca lado a lado com várias outras, não as diminuindo. Stanislavski não se propôs a uma dogmatização decorrente da transformação de sua teoria em objeto de consumo; não se propôs como mera formuladora de mandamentos a qualquer ator. O sistema por ele criado é uma vivência de qualquer pessoa (não somente atores) como si mesma, e das forças internas e externas que a definem como ser humano. A todos, vale a pena revisitar Stanislavski em seus próprios livros, o que ajuda a estabelecer novos caminhos e na criação de um sistema naturalista próprio, sem maneirismos ou estereotipização, ou seja, um conhecimento verdadeiro de si.

Bertold Brecht influenciou sobremaneira o teatro moderno. De certa forma, se opõe a Stanislavski por pretender-se político/social. Para o conteúdo e a crítica serem mais efetivas, Brecht propõe ao ator que não se esqueça de que está atuando, jamais emprestando sua personalidade à personagem. A peça, e assim, o conteúdo crítico deve ser o principal objeto de interesse; dessa forma, o público é constantemente lembrado de que aquilo é uma representação e não se identifica cegamente as personagens como figuras reais. Se assim não fosse, a emoção poderia se sobrepor ao senso crítico. A partir daí, as variáveis se colocam como artifício para ajudar a criar essa irrealidade imparcial.

Tanto o realismo de Stanislavski quanto o não realismo de Brecht convivem simultaneamente no teatro contemporâneo com outras inúmeras teorias. A narrativa deve se adequar ao conteúdo de maneira a pontecializá-lo; e por mais fácil que seja teorizar isso, realizar é tarefa árdua – tanto no teatro, como no cinema – pois não há respostas prontas ou caminho definido. Mas, para fazer a gestão de todos os elementos e ter a visão geral do processo foi criado o cargo de direção.

*Publicado originalmente em jul/2007 na revista Filmes Polvo 

Livros Recomendados:
A Construção da Personagem (Ed. Civilização Brasileira, 1989/Constantin Stanislavski)
A Criação de um Papel (Ed. Civilização Brasileira, 1990/Constantin Stanislavski)
A Preparação do Ator (Ed. Civilização Brasileira, 1982/Constantin Stanislavski)
Brecht, a Estética do Teatro (Ed. Graal, 1992/Gerd Bornheim)



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