“(...) constitui-se de uma soma de
elementos visuais e auditivos, que transmitem informações espaciais, temporais,
circunstanciais, etc., que se acham estritamente relacionadas com (...) aquilo
que está sendo representado. O cenário
nos informa a respeito do local onde transcorre a ação, a época em que se
passa, o poder aquisitivo dos personagens; o figurino diz se está frio ou
calor, se está chovendo, se os personagens são ricos ou não, se vivem na época
atual, na década de 20, no século passado, etc. A soma dessas a outras
informações nos auxilia a entender melhor o que se passa e a formar uma idéia
completa a respeito (...)” (CAMARGO,
Roberto Gil. A sonoplastia no teatro.
Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Artes Cênicas, 1986, pg. 31)
Esse
trecho, que também pode ser aplicado ao cinema, foi originalmente escrito sobre
o teatro. Nas duas artes, uma combinação entre variáveis arranjadas tem a
finalidade de estabelecer um propósito definido e passar o conteúdo desejado.
Seja na combinação lógica e realista desses fatores, de forma orgânica e
formal, seja na desconstrução de paradigmas pré-estabelecidos, criando-se novos
conceitos e/ou conteúdos. O conjunto desses fatores estéticos e sua relação com
o conteúdo formam a narrativa. Dentro do teatro a narrativa tem como papel
central o ator - é dele que o conteúdo se manifesta no público através de
sensações.
Do teatro
Ora,
por delimitações ambientais físicas, o teatro se baseia em uma estética do
exagero, onde todas as pessoas ali presentes devem receber as estimulações
provindas do ator, não importando a distância ou posição. Esse exagero não deve
ser visto de forma descabida, a exceção se for proposital; o ator deve sim se
fazer dono da atenção quando necessário a fim de se comunicar.
Em
rápido resumo, a origem do teatro ocidental remonta os cultos ao deus Dionísio;
dando lugar, depois, a um caráter educativo de representação de tragédias e
comédias. Na idade média, com o apogeu cristão, o teatro encontrava lugar nas
igrejas e mosteiros, limitado, praticamente, a servir à religião. Era primordialmente um veículo
de propagação de conteúdos bíblicos; entrando em declínio em meados do século
XVI. Com o renascimento, as trupes de teatro - desde o século XV – se agruparam
ao redor da nobreza, de onde se tira o termo “teatro elisabetano”. Desde então,
ocorreu um reflorescimento europeu do teatro – passando pela Inglaterra,
França, Itália, Espanha, etc - do qual, aliado às inovações da posterior
revolução industrial, se deu o teatro contemporâneo. Cabe lembrar que, no
Brasil, o teatro foi introduzido pelos jesuítas
como uma forma de catequização dos índios.
Destacam-se,
como pensadores, Constantin Stanislavski e Bertold Brecht. A Stanislavski se
atribui, erroneamente, ao que chamam de Método Stanislavski, famoso por ser
utilizado no Actors Studio de NY. O conjunto
de técnicas e um arcabouço teórico/prático desenvolvidos pelo autor advém de
suas teorias que se propõe dialeticamente, e não de maneira mitificada,
dogmatizada e equívoca como é tratada. As teorias stanislaviskianas são
propostas como um sistema criador, totalmente flexível, sujeitas às
transformações necessárias a cada um. É apenas uma teoria que se coloca lado a lado com várias outras, não as
diminuindo. Stanislavski não se propôs a uma dogmatização decorrente da
transformação de sua teoria em objeto de consumo; não se propôs como mera
formuladora de mandamentos a qualquer ator. O sistema por ele criado é uma
vivência de qualquer pessoa (não somente atores) como si mesma, e das forças
internas e externas que a definem como ser humano. A todos, vale a pena
revisitar Stanislavski em seus próprios livros, o que ajuda a estabelecer novos
caminhos e na criação de um sistema naturalista próprio, sem maneirismos ou
estereotipização, ou seja, um conhecimento verdadeiro de si.
Bertold
Brecht influenciou sobremaneira o teatro moderno. De certa forma, se opõe a
Stanislavski por pretender-se político/social. Para o conteúdo e a crítica
serem mais efetivas, Brecht propõe ao ator que não se esqueça de que está
atuando, jamais emprestando sua personalidade à personagem. A peça, e assim, o
conteúdo crítico deve ser o principal objeto de interesse; dessa forma, o
público é constantemente lembrado de que aquilo é uma representação e não se
identifica cegamente as personagens como figuras reais. Se assim não fosse, a
emoção poderia se sobrepor ao senso crítico. A partir daí, as variáveis se colocam
como artifício para ajudar a criar essa irrealidade imparcial.
Tanto
o realismo de Stanislavski quanto o não realismo de Brecht convivem
simultaneamente no teatro contemporâneo com outras inúmeras teorias. A
narrativa deve se adequar ao conteúdo de maneira a pontecializá-lo; e por mais
fácil que seja teorizar isso, realizar é tarefa árdua – tanto no teatro, como
no cinema – pois não há respostas prontas ou caminho definido. Mas, para fazer
a gestão de todos os elementos e ter a visão geral do processo foi criado o
cargo de direção.
*Publicado originalmente em jul/2007 na revista Filmes Polvo
Livros Recomendados:
A
Construção da Personagem (Ed. Civilização Brasileira, 1989/Constantin
Stanislavski)
A Criação
de um Papel (Ed. Civilização Brasileira, 1990/Constantin Stanislavski)
A
Preparação do Ator (Ed. Civilização Brasileira, 1982/Constantin Stanislavski)
Brecht,
a Estética do Teatro (Ed. Graal, 1992/Gerd Bornheim)

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