sexta-feira, 13 de abril de 2012

Morte - parte 2


 Morte Como a Própria Vida

A vida muitas vezes é experienciada através da inércia, pelo desejo de se manter apenas. Um caso extremo seria Bartleby, personagem do livro homônimo da literatura de Herman Melville, autor de Moby-Dick. Não quer fazer nada, não quer se mover, não quer trabalhar. Não faz por malícia, apenas não deseja nada; está morto simbolicamente.

Em Gritos e Sussurrosobra-prima bergmaniana, entramos em contato com a vida agonizando para encontrar senão a morte. No começo da projeção nos são apresentado relógios, objetos e o lugar de maneira lenta e melancólica que traz o clima que irá perpassar durante todo o filme. O ambiente é vermelho (inclusive os fades também o são), com móveis antigos e pesados. A concepção do figurino e os cabelos, sempre presos, ajudam a criar a atmosfera carregada do filme. O som dos diferentes relógios está sempre no compasso e marca o sofrimento – pontual e agudo – a passividade e a angústia daquelas mulheres; ao longo do filme os tic tacs parecem ganhar cada vez mais peso e sonoridade. O tempo traz outra característica irônica, a atemporalidade – ainda que a morte venha carregar a todos, os segundos sempre continuarão seguindo.



Maria, de certa forma, parece sentir-se culpada pela doença da irmã. Temos pistas de que isso ocorreu devido à atenção da mãe, antes praticamente exclusiva para Maria, tendo que ser compartilhada com Agnes. Mais tarde, quer a aprovação da irmã mais velha Karin, que assume o papel matriarcal. Após o médico examinar a doente, Maria o faz repetir o procedimento de exame, de maneira um pouco diferente, em si mesma. Por causa disso, Maria pode ter desejado a destruição anterior da irmã de maneira encoberta de si,  sentindo-se culpada pelo fato de que realmente a irmã adoeceu e está morrendo. Quando Agnes, agonizante, pede a ela que segure sua mão, Maria recusa em desespero revelando, enfim, o desejo da morte da irmã.

O marido de Maria esteve morto simbolicamente para a mesma. Tal fato pode ser percebido quando ela, absorta em pensamentos, lembrou-se, desejou ou ainda imaginou a “morte” do marido. Ela está carregada de um instinto destrutivo, uma pulsão que, assim como em Bartleby, quer fazer voltar ao estado natural, à calmaria, ao nada.

Karin, a irmã mais velha, é mais racional do que as outras. Mas sofre justamente por se prender aos esquemas e padrões de comportamentos esperados pelos outros. Isso justifica uma enorme carência interna de atenção e admiração. Em seu reflexo da alma, nem o próprio marido a toca ou conversa de maneira satisfatória. A dor de se masturbar com um caco de vidro é menor do que a angústia de viver aquelas mentiras, como a própria nomeia. Além disso, essa dor é um castigo pelos desejos carnais que ela, em vão, tenta suprimir.

Por não ser tocada pelo marido, Karin sente-se como uma figura má, não devendo ser incomodada nem pelas irmãs. Assim, quando Maria tenta se aproximar, Karin a ataca para justificar a ela mesma sua maldade e merece toda a dor e sofrimento que sente: É (é) criminosa pelo sentimento de culpa que sente. Apesar de tudo, se mostra aberta na conversa que Bergman decide nos esconder, talvez porque seria algo que quebraria a melancolia do filme, ou talvez por ser algo apenas de aparências - não importando o que elas conversaram, no fim, são as mesmas.

Finalmente, Agnes, o elo que ligava as irmãs – a moribunda era a mais viva de todas e forçava a interação, a fuga da inércia. Sua morte no final do filme terminou assassinando as próprias irmãs, que ainda vivas não tinham motivo para tal. Ao fim, apenas Anna ainda apresenta uma nesga de vida. Sempre ajudando a cuidar das irmãs, foi repreendida e pouco falava, mas apresentava um instinto materno em relação à Agnes numa tentativa desesperada de manter-lhe a vida. Nem as irmãs, nem o público; somente Anna foi sobrevivente única da chacina psicológica de Bergman.



*Publicado originalmente em jun/2007 na revista Filmes Polvo  

Filmes citados:
Gritos e Sussuros (Viskningar och rop, 1972/Ingmar Bergman)

Livro citado: 
Bartleby, o escrituário (Bartleby the Scrivener: A Story of Wall Street, 1856/Herman Melville)

Nenhum comentário:

Postar um comentário