quinta-feira, 15 de março de 2012

Cinema e Sociologia



Dividir o cinema em categorias é algo difícil. A indústria cinematográfica norte-americana separa os filmes em “gêneros”, o que facilita na distribuição e no consumo. Através disso, podemos facilmente ir a uma locadora e perguntar por uma “comédia romântica” ou um “filme policial”. Isso, geralmente, quando não colocamos o adjetivo novo antes do gênero. Exemplificando, escutamos frases como: “Você tem aquele novo suspense?”

Essa idéia do novo é importado do american way of life, e, seguindo essa lógica, um Poseidon, usando toda a tecnologia disponível seria melhor que o antigo Destino do Poseidon. Mas cinema é arte, e um filme em preto e branco, ou mudo, não é menos filme do que o novíssimo do Tom Cruise. Vez por outra, esse novíssimo nem devia ser categorizado como filme.

Então, voltando a essa idéia de gêneros usada por Hollywood, temos: Comédia romântica, drama, terror, suspense, policial, ação, épico, comédia, ficção científica...
Agora, em que gênero se encaixaria, por exemplo, Pulp Fiction? E A Idade da Terra?
Não há resposta. Toda limitação feita nunca abrangerá totalmente certas obras. Mas para fins comparativos, associativos e didáticos funcionam de maneira eficiente.

Tendo isso em mente, “classifico” o cinema em três grandes grupos, igualmente importantes, que funcionam de maneira análoga a três grandes pensadores da sociologia: Durkheim, Weber e Marx.


PPR – Perguntas Previamente Respondidas
Antes de começar as analogias, vou responder certos questionamentos que doravante posso receber.


- Porque o novíssimo do Tom Cruise e não o novíssimo da Xuxa?
  Porquê a palavra filme somado a Xuxa, em qualquer frase, torna a oração incompreensível. 

- Mas porque sociologia? Porque os três?
  Porque sou pretensioso! Brincadeira! Está longe de ser uma aula de sociologia. É uma comparação que ajuda a ter uma idéia mais ampla sobre três tipos de cinema, e através disso, levantar questões e discussões interessantes.

- Droga, matei essas aulas!. (ou) Droga, nunca tive essa aula! (ou) Droga, odeio sociologia!
   Não se preocupe! Tracei uma analogia na tentativa de ampliar a visão cinematográfica viciada em cinema de gênero. Apenas uma alternativa para aqueles em busca de uma outra visão sobre categorias cinematográficas. A sociologia no caso, serve para fins comparativos apenas, não sendo necessário o conhecimento prévio.

- Quem são os pseudo-intelectuais?
Entendo por pseudo-intelectual aquela figura que se limita a ver, freqüentar e ler somente o que dizem ser intelectual, ignorando qualquer outro tipo de informação além, sendo até preconceituosos. Geralmente não chegam à conclusão do que é ou não intelectual sozinhos.


CINEMA DE ENTRETENIMENTO E DURKHEIM:

O cinema da indústria de entretenimento abocanha a maior parte do público mundial. Não há quem goste de filmes, pois sempre há um gênero que se encaixe no perfil de cada um. Mesmo os pseudo-intelecutais se encaixam em um perfil; afinal, pras distribuidoras, “filmes de arte” é um gênero, e assim, vendável para um público alvo. De certa forma, boicotar o cinema americano é hipocrisia; ninguém nasce assistindo Nouvelle Vague (que por sinal, os teóricos e criadores admiravam vários diretores do cinema clássico americano). A geração 80/90 (a maioria dos pseudos são dessa geração) deve sua cinefilia à Sessão da Tarde e ao Cinema em casa. Todos precisamos de uma válvula de escape às vezes, e, esse tipo de filme é ótimo para entreter. Dentro dessa indústria ainda, muitos filmes de qualidade são lançados, que mesmo não se encaixando nessa categoria, tem um pé nela.  

Podemos então estabelecer uma comparação desse cinema de indústria ao sociólogo francês David Émile Durkheim (1858-1917). Em suma, para ele, a sociedade prevalece sobre o indivíduo e o objeto de estudo da sociologia são os fatos sociais; regras e normas coletivas que orientam a vida dos indivíduos em sociedade. Tais fatos sociais têm origem na própria sociedade e não na natureza ou nos indivíduos. Toda sociedade tem de educar seus membros para poder adequá-los na vida social. O indivíduo social aprende a seguir normas e regras de ação que não foram criadas por ele e são coercitivas. O método das ciências sociais é, para Durkeim, analisar os fatos sociais como objetos que existem independentemente das nossas idéias e vontades. Com isso, ele afirma a neutralidade do sociólogo, assim como sua objetividade, pois ele deve descrever a realidade social sem deixar que suas idéias e opiniões interfiram na observação dos fatos sociais.

Usando a analogia, dizemos que esse cinema de indústria prevalece e influencia os indivíduos, tratando as figuras centrais dos filmes como “astros”, e também influencia na moda, tendência, gosto e até outros filmes. É basicamente, regido por normas de mercado e velhas regras que já funcionaram antes, o que facilita a já citada arma do mercado; os gêneros cinematográficos. Você sabe o que esperar de um filme classificado como comédia romântica, pois já viu outros exemplares do gênero. Somos “educados” por esse tipo de indústria, direta ou indiretamente. O cinema de entretenimento, apesar de ser feito para os indivíduos das grandes massas, paradoxalmente independe das idéias e vontades dos mesmos. A massa é facilmente moldada pelos filmes, pela má crítica e outras armas das grandes indústrias. O mal crítico faz o papel do sociólogo durkheiniano. Tende a ser neutro dentro desse meio, ser objetivo e imparcial. Por exemplo, analisa a fotografia, a trilha e os elementos que compõe um filme, mas quase nunca o filme como um todo, como uma obra orgânica.


CINEMA DE INVESTIGAÇÃO E WEBER:

O cinema de investigação é o cinema autoral, que não se filia a um movimento. Podemos citar de Almodóvar, Woody Allen, Bergman, Kubrick, entre tantos outros dentro dessa categoria. São filmes com peculiaridades próprias de cada autor. Um cinema próprio que discute a sociedade, a realidade e também o “fazer” cinematográfico.


Max Weber (1864-1920) discorda de Durkeim dizendo que a sociedade não foge da vontade e do controle dos indivíduos. Para ele, a sociedade poderia ser entendida a partir das ações sociais, que é qualquer ação feita tendo como orientação à ação dos outros, e poderiam ser classificadas em diferentes tipos que serviriam para tornar compreensível certas ações dos agentes sociais. Essas ações sociais deveriam ser o objeto de estudo da sociologia. Como conseqüência, o método weberiano difere-se do de Durkheim. Weber enfatiza o papel do sociólogo como ativo em face da sociedade, sendo assim as construções teóricas dependem das escolhas pessoais que devem ser feitas tendo em vista os aspectos da realidade que se pretende explicar. Portanto a neutralidade é impossível.

Trazendo para o cinema de autor, o cinema discute a realidade e passa pelo controle de um autor, que imprime sua subjetividade na obra cinematográfica. As ações sociais seriam os objetos que os autores “investigam” por assim dizer. Hitchcock investigou principalmente o suspense, vários autores investigam a metalinguagem, a forma, a narrativa, o som, a fotografia e afins. Essa investigação como parte principal do “fazer” cinematográfico é o que define o cinema de investigação. O crítico, como sociólogo, aqui tem um papel importantíssimo: investigar, junto aos autores, o próprio filme, partindo da sua subjetividade para análise de uma outra, que ajuda na compreensão para os demais indivíduos. Esse seria o crítico de investigação.


CINEMA DE REVOLUÇÃO E MARX:

Por fim, chegamos ao último grupo. Os cinemas de revolução geralmente vêm de uma classe, de um movimento. Então podemos citar Cinema novo, Nouvelle Vague, Neo-realismo italiano, Dogma 95. Movimentos cinematográficos que geraram repercussão tal, que é sentida até hoje em diversos filmes. Tem grande influência e altera a forma de se pensar e fazer cinema. Também é o grupo que está mais em falta hoje em dia. Principalmente no Brasil, desde a morte de Glauber Rocha, é quase nula a tentativa de um cinema de revolução. Pelo contrário, tentamos de forma vã, competir com o cinema de indústria americano, e o máximo que conseguimos é fazer um cinema à altura. O cinema brasileiro de autores sofre com sérios problemas de distribuição. Por isso é ainda mais difícil nos formarmos como movimento cinematográfico. A indústria estabelecida e o público brasileiro que pré-julga os filmes de seu próprio país, só prejudicam esse último grupo revolucionário.
 

Para Karl Marx (1818-1883) na sociedade capitalista, as relações sociais definem dois grupos: Os capitalistas, detentores dos meios de produção, e o proletariado, que possuem apenas seu corpo e disposição para o trabalho. Essa distinção dos grupos leva o capitalista a explorar o proletariado, por isso haveria um eterno conflito entre as classes, que não são passíveis de resolução dentro do capitalismo. Assim o conceito de classe é um grupo de indivíduos que ocupam o mesmo locus na relação de produção em sociedade. Metodologicamente, Marx afirma que o sociólogo não deve apenas descrever a realidade social, mas deve se ater à análise histórica de como essa realidade se reproduz, como se formaram as classes e o histórico das relações, para assim, mostrar possibilidades de transformação dessas relações de classe no futuro. Essa possibilidade do cientista social transformar a realidade traz o papel do político revolucionário. Assim sendo, o sociólogo tem um papel de compreender e ainda de transformar a sociedade.

O capitalista no caso do cinema é o mercado, e também somos nós, o povo. O mercado nos manipula, é claro, mas até que ponto nós deixamos ele nos manipular? Temos grande parcela de culpa sempre que abaixamos a cabeça diante de uma situação. O ser humano está fadado a ser livre, já dizia Sartre em seu existencialismo. A exploração do capitalista, nesse caso, é ignorar a manifestação do proletariado, os pensadores e realizadores de um movimento cinematográfico revolucionário. Essa indústria pré-estabelecida, e o “gosto” do público; é o próprio capitalismo de Marx. Sobre a metodologia marxista, o papel do crítico/diretor/produtor revolucionário é não só o de se ater à análise dos filmes, da história, e do próprio cinema, mas também, de prever uma possibilidade de transformação do cinema e até mesmo da sociedade. Disse de crítico/diretor/produtor, pois os conceitos se confundem, não havendo muita diferenciação. Os autores de movimentos revolucionários lutam não somente por lutar, ou por acreditarem em uma superioridade cinematográfica, lutam por expressar sua subjetividade e transformação da realidade. Lutam por um ideal.

Douglas Lisboa



*Publicado originalmente em jan/2007 na revista Filmes Polvo



Poseidon (Idem, 2006)
Direção: Wolfgang Petersen

O Destino do Poseidon (Poseindon Adventure, 1972)
Direção: Ronald Neame    

Pulp Fiction (Idem, 1994)
Direção: Quentin Tarantino

A Idade da Terra, 1980
Direção: Glauber Rocha 

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