domingo, 18 de março de 2012

Mais estranho que a ficção



Mais estranho que a ficção, apesar da situação fantástica do enredo, têm uma realidade crível e orgânica, não encontrada em filmes como Click ou Todo Poderoso - que também trabalham com situações fantásticas -,  pois explora mais o sentido poético ao invés de extrair o máximo de piadas possíveis através da proposta. É uma fábula onde se investiga o cotidiano, se brinca com a literatura e é recheado de metalinguagens. O longa não se define em uma categoria clássica, como o próprio logra; em certo momento da projeção, o personagem principal Harold Crick (Will Ferrell) tem que analisar se o livro que representa sua vida é uma comédia ou uma tragédia. Nisso o filme brinca em se definir como algo entre esses gêneros, criticando a fragilidade das categorizações. Como já disse em um texto anterior, dividir o cinema em categorias é muito funcional para a distribuição, mas peca por limitar algo que não seria possível. Se formos pegar o exemplo de Mais estranho que a ficção, dificilmente podemos colocá-lo dentro de uma só categoria.


Recapitulando o teatro grego, a tragédia e a comédia nasceram das festas ao deus Dionísio onde, por estarem embriagados, escapavam do real e entravam em outra dimensão da realidade. Começaram a narrar a vida de Dionísio em seus altos e baixos, e aos poucos, foi surgindo o teatro clássico grego. Através das ações cíclicas do cotidiano, repetições dos atos, alcançando assim, a atemporalidade. Também, nas tragédias, o herói luta contra as forças divinas, que também são cíclicas (e por isso perenes) dos Deuses. Assim os dramaturgos constituíam as tragédias sendo que, ao fim, a morte do herói fazia todo sentido, pois seria o fim da repetição e assim, a transitoriedade dos ciclos. A tragédia se constitui, na maioria das vezes, da queda, da redenção e da falta absoluta de solução (ou seja, a morte). Na comédia, a função é crítica e não há herói. O protagonista não é filho dos Deuses, ou nobre o bastante para confrontá-los, um homem comum da polis e por isso, grande instrumento para sátira e crítica.

Harold é metódico, distante e vive mecanicamente um cotidiano sem altos e baixos. Começa a escutar a voz que insistentemente narra sua vida e quando essa voz anuncia sua morte eminente, ele procura ajuda. Encontra com um professor de literatura (Dustin Hoffman), que enfim, decide ajudá-lo. Ao fim, descobre que a única solução seria morrer, e num ato de redenção aceita seu destino trágico. Harold é um homem comum, sem nada especial, e até a escolha do ator brinca com o gêneros; Will Ferrell é conhecido por comédias. O filme passeia pela definição da comédia atual e pela tragédia. Harold vive uma vida em que todos os dias são iguais e resolve se voltar contra a voz que narra sua vida (Deuses). Ao fim, sua morte seria a redenção que tanto esperava. A temporalidade se funde ao seu lado compulsivo metódico com a ajuda de seu relógio, que controla minuciosamente sua vida. Em vários momentos, o filme patina entre os gêneros sendo que, em certo arco, se define como comédia, pois, de acordo com o próprio personagem “conquistei a garota que me odiava”, o que nunca aconteceria em uma tragédia. Porém, após certos acontecimentos, sua morte era eminente e necessária, não somente no livro, como no filme. E em seu filme, o clímax o define como tragédia. E aí que se encontra o trunfo do longa: a ironia. A saga para se descobrir como classificar o livro vai nos dar a resposta do que esperar do filme. Somos forçados a aceitar e até desejar a morte do protagonista, mas, quando Kay Eiffel (Emma Thompson) poupa a vida do protagonista, ficamos frustrados,  sem o conforto de estarmos vendo um filme que se encaixaria em uma categoria clássica. Portanto, o filme é claramente coerente com sua proposta de escorregar entre a superficialidade dos gêneros.

Uma cena em particular faz uma brincadeira praticamente literária, quando Harold leva farinha (flour), que se aproxima muito da pronúncia de flor (flower), para Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal). O que, cabe muito dentro do contexto do filme, já que, em uma narrativa, a troca das palavras de pronúncia parecida representaria um trocadilho bem literário.

A lição de moral explícita em alguns filmes subestima a inteligência do público. Em Click é irritante e gritante, bastava em uma tela negra e os dizeres “aproveite sua vida, sua família, suas oportunidades, o tempo é passageiro, aproveite o tempo.” Enfim, piegas e forçado. Além do que, a mulher, a família, o emprego, são todos tratados no mesmo nível, como se fossem apenas objetos na vida do protagonista. Ao fim, o melodrama mal utilizado na redenção, no clímax, força alguma sentimentalidade no filme. Já em Mais estranho que a ficção, há também tudo isso, mas sem forçar a barra. Quando o próprio protagonista aceita sua morte, a trilha sonora ajuda o filme a não cair em um melodrama por demais forçado. Os efeitos visuais são também muito interessantes e ajudam a construir o caráter obsessivo de Harold, sem nunca o personagem ficar simplesmente falando todo o tempo e parecer inorgânico. Enfim, saí do cinema com uma sensação muito similar e gostosa a filmes como Huckabees – a vida é uma comédia, Hora de voltar e Pequena Miss Sunshine; e, o mais importante, apaixonado pela Maggie Gyllenhaal.


*Publicado originalmente em fev/2007 na revista Filmes Polvo

Filmes Citados:

Click (Idem, 2006/ Frank Coraci)

Todo Poderoso (Bruce Almighty, 2003/ Tom Shadyac)

Huckabees – A Vida é Uma Comédia (I Heart Huckabees, 2004/ David O. Russell)

Hora de Voltar (Garden State, 2004/ Zach Braff)

Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006/ Jonathan Dayton e Valerie Faris)

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