sexta-feira, 9 de março de 2012

O Labirinto do Fauno

Alice no País das Maravilhas é um livro escrito por Lewis Carroll, pseudônimo do reverendo Charles Lutwidge Dodgson. O reverendo era professor de matemática e tinha suas excentricidades, entre elas, desenhar ou fotografar pequenas meninas nuas (sempre com o consentimento das mães). Sempre gostou de animar essas garotas. Enfim, em uma tarde ensolarada, remando um barquinho com mais três amigas, ele começou a contar histórias depois que Prima, Secunda e Tertia suplicaram. As três eram irmãs: Prima era Lorina Liddell, Secunda era Alice Liddell e Tertia era Edith Liddell. Alice tinha cabelos curtos e escuros; era a preferida de Carroll e pediu-lhe para que escrevesse e mandasse as histórias contadas naquele dia. Assim nasceu a personagem Alice, porém loira e de cabelos longos, nos idos de 1860.






Há uma forte correlação entre O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, e o supracitado Alice no País das Maravilhas. Arrisco-me a dizer que é a história de Alice recontada e ambientada na ditadura espanhola de Franco. A história tem um tom de fábula e vários elementos ajudam na construção desse ambiente, começando com o bosque que tem um aspecto quase mágico: sempre há umas partículas, que parecem vários “algodões”, em suspensão, recurso também usado no game The Legend of Zelda: Ocarina of Time.

Aproveitando a referência pouco usual, vou dar uma pequena pincelada sobre esse universo. A franquia Zelda se iniciou em 1986 no Nintendinho e depois migrou para Game Boy, Super Nintendo, Nintendo 64, Gamecube, Wii e outros consoles da Nintendo. Zelda, como muitos confundem, é o nome da princesa e não do nosso herói Link; que, na maioria dos jogos, tem que resgatá-la.  O majestoso quinto jogo da franquia - The Legend of Zelda: Ocarina of Time foi lançado para Nintendo 64 no ano de 1998. Os jogos em três dimensões estavam em ascensão e esse Zelda em questão trazia um universo mágico, épico e medieval para as mãos do jogador. Cenários imensos e encantadores (onde os tais flocos de algodão flutuam e ajudam a trazer o mágico para o ambiente), fauna, flora, raças e personagens característicos, labirintos e uma narrativa que podia ser quebrada a qualquer momento do jogo; você poderia sair do labirinto e ir pescar, fazer pequenas missões (sidequests) ou mesmo passear pelo Hyrule Field a cavalo. De fundo, a história de um menino sem fada, que no dia em que recebeu a sua, teve que lutar contra Ganodorf, rei dos ladrões do oeste. Durante o jogo, transitamos entre a adolescência e a infância, viajando no tempo através da ocarina do tempo, que dá nome ao jogo. Se é um ambiente mágico extraordinariamente eficaz, porque não buscar referências em jogos também. Enfim, esse Zelda influenciou o mundo dos games e conquistou a fama de um dos melhores de todos os tempos. A questão da analogia entre filmes e jogos não é muito vista, quiçá evitada, mas, apesar de mídias diferentes, há muita equivalência. 

Voltando ao universo do filme, há esculturas antigas e um labirinto ao lado da casa que serve de abrigo para os militares, que estão em guerra contra pequenas milícias anti-ditatoriais. Apesar de mágico, nada no lugar é feliz. A fotografia e a arte fazem um belo trabalho e em geral o aspecto é melancólico.  O capitão Vidal, encarregado da casa, recebe sua esposa grávida (viúva de um alfaiate) e a filha da mesma, nossa “Alice”: Ofélia. Ambientes pouco favoráveis fizeram Ofélia (e também Alice) ausentar-se da realidade e procurar refúgio na imaginação. Óbvio que o ambiente de Alice era muito menos opressor e sufocante.



Ofélia tem que realizar três tarefas propostas pelo Fauno para poder voltar ao seu reino como princesa. Pra realizar a primeira tarefa, ela está usando um vestido parecido com o da Alice, porém, com uma cor que causa estranheza na tela, o verde. Isso mostra que aquela é a história da Alice recontada, subvertida, estranha. Alice com seus longos cabelos loiros, Ofélia (assim como a verdadeira Alice Liddell) com curtos e escuros. Assim, Ofélia tira o vestido e entra pelo buraco na árvore, numa referência clara à toca do coelho. 

O coelho, como o padrasto, capitão Vidal, tem uma fixação por um relógio, pois representa a morte para ambos. Para o primeiro, o atraso com a rainha de copas resultará no seu degolamento, já para o segundo, símbolo da morte do pai e de sua própria. Se para Alice o coelho foi uma desculpa inocente e curiosa que a fez entrar no mundo fantástico, para Ofélia o convívio grosseiro com aquela realidade a fez encontrar segurança somente na fantasia.

O capitão Vidal é um sujeito que ambiciona um filho que continue sua linhagem, dando pouca importância para a mãe de Ofélia, que ainda se apresenta doente, e menos ainda para a menina. O capitão é violento, seco e insensível e assim representa também a Rainha de Copas. Aliás, com a guerra, Del Toro mostra que ela não tem nada de bela e usa bem a violência. O capitão, como peão da ditadura, tortura, mata, se machuca, se costura. Na guerra, há tiros na cabeça, pernas amputadas. Tudo isso sem esconder a câmera. A cena em que o capitão atinge um suspeito no nariz com uma garrafa remete à cena com o extintor em Irreversível. O grafismo da violência se aperfeiçoou de tal maneira que alguma maquiagem e um computador conseguem um realismo absurdo digno de Holocausto Canibal. É uma perfeição assustadora e, para não deixar de citar, o Fauno e os outros personagens mitológicos que são críveis e bem trabalhados.

Na segunda tarefa, nossa princesa se dá ao luxo e à curiosidade de fazer algo proibido, e após, o Fauno se revolta e desaparece, levando consigo as comparações com Alice. A menina tem que lidar com problemas do mundo “real” sem a ajuda do seu mundo mágico. Sua mãe doente, o suposto remédio jogado fora, o nascimento de seu irmão, o tratamento que seu padrasto lhe reserva, a empregada Mercedes (sua única amiga naquele lugar), a milícia. Trancada no quarto por seu padrasto, recebe novamente a visita do Fauno, disposto a lhe dar outra chance. Ofélia precisa levar o irmão para o labirinto. Após uma perseguição, a menina fica entre o Fauno e o padrasto, que não vê o primeiro.

Apesar do final ambíguo (triste na guerra, feliz na fantasia), O Labirinto do Fauno tem como maior convergência em relação ao livro Alice no País das Maravilhas as dificuldades na transição da infância para a adolescência Enquanto Alice cresce e diminui, numa metáfora clara a essa transição, Ofélia vive um conto de fadas em uma guerra, sendo obrigada a “crescer”. Sua mãe reforça essa maturação, mas a criatividade da pequena quer manter sua inocência, a “diminui”, o que é estritamente necessário para as aventuras naquele mundo maravilhoso, longe da ditadura e da guerra.


*Publicado originalmente em jan/2007 na revista Filmes Polvo


O Labirinto do Fauno (El Laberinto Del Fauno, 2006)
Direção: Guillermo del Toro

Filmes Citados:

Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust, 1980)
Direção: Ruggero Deodato


Irreversível (Irreversible, 2002)
Direção: Gaspar Noé

Livro citado:

Alice no País das Maravilhas (Alice’s Adventures in Wonderland, 1865)
Autor: Lewis Carroll

Jogo citado:

The Legend Of Zelda: Ocarina Of Time, 1998
Diretor: Shigeru Miyamoto
Console: Nintendo 64




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