Do cinema
O cinema foi, de certa maneira, subvalorizado
quando da sua criação. Os irmãos Lumière desconheciam as potencialidades do que
acabaram de criar. Já se vê em A chegada
do trem à estação ou A saída dos
operários da fábrica uma matéria bruta passível de lapidação. Não era
somente a imagem em movimento captada pelo cinematógrafo, mas uma matéria-prima
essencial para uma nova arte. E logo, surgiram os que começaram essa lapidação –
Méliès, Porter, Griffith, Vertov etc.
No
começo, o cinema ainda se assemelhava a um teatro filmado. Não havia decupagem,
o enquadramento era fixo, etc. A narrativa ainda se desenvolvia muito parecida à
dos palcos, com certas dificuldades para transições temporais e espaciais. Aos
poucos, principalmente com os estudos relacionados à montagem, fotografia e
movimentos de câmera essa realidade foi se modificando. Os atores usavam
maquiagens fortes e exageravam nas expressões e movimentações devido a vários
fatores. Suponho ser a qualidade baixa da captura e/ou projeção, pois assim era
mais visível a atuação; a falta de técnica nos planos detalhes, que
aproximariam o olhar do espectador para determinada ação; a tradição teatral,
ainda em alta; ou ainda, a falta da variável “som” - sendo a expressividade dos
atores necessária em contingência às cartelas para assim formar sentido. O
ápice dessa expressividade se deu no Expressionismo
Alemão; onde, aliada ao conteúdo, a narrativa demandava um exagero
proposital por parte dos atores em consonância com as sombras exageradas dos
cenários e roteiro.
Com
O cantor de Jazz, de 1927,
introduziu-se o cinema falado. Muitos atores do cinema mudo não se adaptaram,
pois – entre outros motivos – não possuíam adequação vocal para tal. Muitos
cineastas, de Chaplin a Eisenstein, criticaram essa novidade. Apesar de tudo, o
som encontrou seu espaço no cinema e aproximou mais o realismo de Stanislavski
do cinema narrativo clássico. Já não era preciso pontuar com expressões faciais
e corporais os sentidos da imagem. O ator possuía então uma nova e importante
ferramenta a sua disposição: a voz.
O
cinema encontrou uma divergência de foco principal. O olhar direcionado se
tornou a principal ferramenta dentre as variáveis narrativas. Assim, o
resultado da construção da personagem no realismo ficou mais aproximado das
pessoas reais encontradas em qualquer esquina. Em conjunto com a câmera, que é
um olhar direcionado, o diretor é capaz de captar o mínimo movimento de um
ator, as mínimas expressões que, projetados em telas grandes mais tarde, traz
significado pra frase tão comumente dita e ouvida:
“Atuação
no cinema é construída a partir de mínimos”.
Teatro X Cinema
Ironicamente,
o ator é muito mais valorizado socialmente no cinema do que no teatro, onde o
mesmo reina sem a enorme devoção social dedicada às estrelas. O Star System americano criou um culto à
figura dos atores que os elevou a um status
mais elevado perante a sociedade. Também é necessário frisar que o cinema
possui maior penetração e aceitação na população do que teatro - o que colabora
para a posição do status.
A
transposição entre linguagens – teatral e cinematográfica – para atores, não é
clara para os iniciantes na categoria. Muito se vê em publicidade de “cursos de
teatro” a preparação para teatro/cinema/tv; sendo que apresentam apenas uma
técnica, ou pseudo-técnica, que limitam a visão e a crítica do iniciante. Geralmente,
é usada algo baseado no naturalismo, empobrecido com estereótipos e reforçados
por certa visão errônea dos professores. Aproveitando, os estereótipos são
necessários e interessantes a depender da proposta, mas os vícios e a
dependência cega nos mesmos são o grande problema.
O
ator se constrói da vivência, interna e externa aos palcos/sets. Não há uma só maneira de atuar; a linguagem e a mídia
demandam certos perfis. No cinema, como detalhes são extremamente importantes,
o perfil físico se faz mais importante do que a própria expressividade. Não há
dúvidas que John Wayne foi um grande ator, porém, de cinema. No teatro talvez
seria um desastre risível. Assim como há grandes atores de teatro que não são
adequados ao cinema. Também há os que transitam muito bem entre as mídias.
Cinema e teatro são artes diferentes, com profissionais diferentes, diferentes
visões e que trazem percepções únicas e distintas.
No
teatro, há uma maior incontrolabilidade e
conseqüente improvisação e adaptabilidade. Esses fatores propiciam certa falta
de “continuidade” entre uma apresentação e outra, tornando o espetáculo mais
atraente. No cinema, como é possível repetir planos e as variáveis controladas
são tantas, corre-se o risco de subvalorizar o ator e seu trabalho, utilizando-se
dos atores como meras marionetes de roteiro – sendo na aliança de vários
profissionais e visões de mundo que se dá o cinema. É importante saber aliar a
flexibilidade com a controlabilidade quando necessário, afinal o controle da
variável depende da visão do gestor do processo e da narrativa criada. Ou ainda,
como Marçal Aquino sintetizou em uma palestra “Cinema é igual suruba”.
Enfim,
o levantamento histórico e funcional da variável “ator” dentro do contexto
cinematográfico se faz tão necessário como o das outras variáveis. É preciso
fugir do lugar-comum de apenas avaliar se o ator foi bom, médio ou medíocre, avaliação
praticada pelo marketing de análise. Atuar
é uma arte e deve ser tratada como tal, levando - quando possível - a
questionamentos e construção de conhecimento.
*Publicado originalmente em jul/2007 na revista Filmes Polvo
Filmes Citados:
A
chegada do trem à estação (L’Arrivée d’un train à la Ciotat, 1895/Auguste e
Louis Lumière)
A
saída dos operários da fábrica (La sortie des usines Lumière, 1895/Auguste e
Louis Lumière)
O
Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1927/Alan Crosland)










